Adolescente é chicoteado por furtar chocolate
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 04 de setembro de 2019
Dhiego Maia – Folhapress 
São Paulo - De um lado, sacos de cebola. De outro, caixas de melancias, verduras e legumes. E no centro do cubículo: um adolescente negro, amordaçado e nu. Em cárcere privado, a vítima passa por uma sessão de tortura. A cena lembra uma mancha ainda viva na história do Brasil que se fez nação com todo tipo de abuso praticado contra a população africana.
As chibatadas, assim como na época da escravidão, são direcionadas às costas do jovem. Não há tronco, mas um fascínio dos agressores em registrar cada grito de dor da vítima em vídeo gravado num aparelho celular.
A tortura avança. Os fios de energia trançados atingem a vítima pela segunda vez, que se contorce de dor. Na terceira chibatada, um dos agressores ri e manda o adolescente se virar. Num claro ato de zombaria, um dos agressores diz: "não quebrou nada". Trabalho bem executado, quis dizer um dos agressores quando avisa o adolescente que nenhum osso dele foi afetado. A sessão não termina, como parecia crer a vítima. Um dos agressores ainda avisa. "Vai tomar mais uma [chibatada] para a gente não te matar. Você vai voltar?"
O espancamento gravado em vídeo dura 40 segundos e ocorreu numa manhã de agosto dentro de uma unidade da rede Ricoy, na zona sul de São Paulo. As imagens foram parar nas redes sociais e fizeram a polícia a abrir um inquérito nesta segunda-feira (2) - um mês depois do ocorrido.
Foi nos fundos da unidade localizada na avenida Yervant Kissajikian, na Vila Joaniza, que o adolescente foi torturado por dois seguranças da loja. No boletim de ocorrência consta que o adolescente foi torturado porque furtou barras de chocolates do estabelecimento.
Assim que deixou a loja, o adolescente diz ter sido abordada por um dos seguranças apelidado de Santos. Ambos já se conheciam, segundo a polícia. Ameaçado, foi levado por Santos e mais um segundo segurança, conhecido por Neto, para um cômodo utilizado como depósito de mercadorias.
O adolescente diz que permaneceu por 40 minutos no local e que lá foi agredido o tempo todo. "Depois de apanhar bastante, foi liberado pelos agressores e não quis registrar boletim de ocorrência pois temia pela sua vida", diz a polícia.
O adolescente afirma ainda que ouviu Santos dizer que, se ele o denunciasse, iria matá-lo. "Quero Justiça contra isso, eles fizeram maldade. Quero eles dentro das grades", disse a vítima em entrevista à TV Globo.
Desde os 12 anos morando na rua, o adolescente diz ter sido apreendido uma vez após invadir uma residência. Pelo crime, cumpriu medida socioeducativa na Fundação Casa, órgão que busca ressocializar jovens em conflito com a lei.
Para o advogado Ariel de Castro Alves, que também integra o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, os agressores queriam exaltar "os atos bárbaros e cruéis com a gravação". "Ela demonstra até um certo sadismo", diz.
A tortura é um crime hediondo e ocorre quando alguém é submetido, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental. A lei 9.455 de 1997 prevê penas de 2 a 8 anos aos acusados. O Conselho Tutelar de Cidade Ademar também acompanha o caso.
OUTRO LADO
A rede supermercadista Ricoy informa que os seguranças foram afastados de suas funções. A reportagem não localizou a defesa dos suspeitos. O grupo diz ainda que repugna a atitude de seus colaboradores. "A empresa não coaduna com nenhum tipo de ilegalidade e colaborará com as autoridades envolvidas na apuração do caso para tomar as providências cabíveis", segundo comunicado enviado à reportagem.
A rede não informa quando a tortura ocorreu e que medida vai tomar para evitar novos casos.


