Arapongas - Ao passar em frente à Associação dos Coletores Ambientais de Arapongas (Ascar), muitas pessoas enxergam apenas um simples barracão escuro, antigo e empoeirado, com materiais recicláveis espalhados por todos os cantos. Porém, ao contrário do cenário de esquecimento e exclusão, o que se pode encontrar neste lugar são histórias de mulheres que batalham pela vida, gostam do que fazem e se orgulham de poder contar tudo isso sem nenhum ressentimento.
Foi justamente este enredo de esforço e luta que despertou a atenção da advogada Sandra Gasparotti e a produtora cultural Édina Kummel. Comovidas e atuantes nos trabalhos sociais com as mulheres de Arapongas, trabalharam juntas e lançaram o livro ''Mulheres Admiráveis'', através da Lei Rouanet e em parceria com empresas locais.
''É muito bom perceber que um projeto como o Mulheres Admiráveis, que nasceu para resgatar a história de mulheres que contribuíram para a construção de nossa cidade, teve continuidade e resultou em um livro com fotos e poemas'', explica Édina.
Durante quatro anos, foram realizadas pesquisas e exposições sobre as mulheres que atuam nos mais diversos segmentos. Mas a repercussão das catadoras de papel foi tão boa, que as autoras resolveram partir para um projeto mais amplo. E o resultado disso é a alegria que tomou conta das homenageadas.
Flávia Martins da Silva, de 61 anos, nasceu em Maringá (Noroeste), mas mora em Arapongas há 10 anos. Antes de se tornar catadora de papel e presidente da Ascar, Flávia era freira em Londrina. Para ajudar a cuidar dos pais, mudou de endereço e também de vida. ''Sou muito feliz com o que faço'', diz.
À frente de 27 catadores, Flávia administra a pesagem, seleção, prensa e venda dos materiais, que chegam a 20 toneladas por mês. Nos momentos livres, ela procura se atualizar sobre um assunto que muito lhe interessa: os animais. ''O sonho da minha vida é ter uma Sociedade Protetora dos Animais (SPA) para ajudar todos os cachorros que encontro pelo caminho'', comenta ela, afirmando que, por diversas vezes, socorreu os animais vítimas de atropelamentos. ''Eu fico com muita pena porque eu não tenho onde abrigá-los'', completa.
Ao imaginar como seria esse SPA, Flávia diz que espaço teria de sobra, as baias seriam todas cercadas e o tratamento seria impecável, com veterinários, vacinas, rações e brincadeiras. Com o exemplo de Flávia, fica claro que as catadoras de papel de Arapongas não buscam apenas uma fonte de renda no lixo. Elas estão em busca de amor, carinho, reconhecimento e a esperança de poder realizar seus sonhos.
Uma conquista de peso
Logo na entrada do barracão para onde são levados os materiais recolhidos pela cidade, fica o posto de trabalho de Elizete da Rocha, de 48 anos. Ao contrário das demais mulheres da Ascar, Elizete não vai para as ruas. Como ela mesmo diz, ela é a ''mulher da balança''.
Com um o olhar atento ao ponteiro do equipamento, Elizete faz a pesagem dos materiais e anota tudo em um papel. ''Eu gosto mesmo é de trabalhar na balança. Estou muito feliz em participar desse livro porque isso nunca tinha acontecido com a gente. Ninguém tinha olhado para nós'', diz, contente.
Solteira e mãe de dois filhos jovens, Elizete se orgulha em revelar que tudo o que conquistou na vida foi através de muito suor e dedicação. Divertida e vaidosa, a ''mulher da balança'' percebeu que a vida pode ser maravilhosa se for preenchida de amor. É por isso que nas horas vagas ela arrasta os móveis de casa, liga o rádio e simplesmente encontra a felicidade ao dançar com o namorado. ''Tenho orgulho de mim mesma porque não preciso de muito para ser feliz'', completa.
Assim como as histórias de Flávia e Elizete, a vida de outras sete mulheres são retratadas no livro. Durante todo esse trabalho, as autoras dizem que foi impossível não se envolver e se emocionar.
Para Sandra, responsável pelos poemas e fotografias, essas mulheres são admiráveis porque estão na luta diária, sem perder a vaidade e a sensibilidade. ''O tamanho dos sonhos é igual para todo mundo, mas a força dessas mulheres é bem maior. A minha preocupação era captar o que é invisível aos nossos olhos: a sutileza e a simplicidade que habitam por trás dessa feição sofrida'', explica.
Ao folhear as 98 páginas do livro, é possível se deparar com uma leitura prazerosa através de histórias emocionantes. ''É um trabalho que realmente valeu a pena'', ressalta Édina. Os livros serão comercializados em livrarias e toda a renda será revertida para as homenageadas.
Serviço - Mais informações sobre o livro Mulheres Admiráveis pelo fone (43) 3055-4732

Confira mais fotos das Mulheres Admiráveis:

Admiráveis mulheres que nos inspiram
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