Londrina - Em 2010, o Brasil atingiu um feito inédito na sua história ao eleger uma mulher para a presidência da República. Este ano, o País está perto de outro marco: caso as urnas traduzam com fidelidade as mais recentes pesquisas de intenção de voto, as eleições presidenciais brasileiras terão pela primeira vez um segundo turno disputado por duas mulheres, a candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB).
Com frequência, estudos mostram que, mesmo tendo mais escolaridade, as mulheres continuam ganhando menos do que os homens no Brasil. Era de se esperar que, com a força representada pelo favoritismo de duas mulheres na briga pelo cargo mais alto da política nacional e pela necessidade de dar o exemplo, a administração pública fosse uma exceção no cenário de desvantagem histórica da população feminina no mercado de trabalho. Mas isso está longe de acontecer.
Segundo o Boletim Estatístico de Pessoal e Informações Organizacionais do Ministério do Planejamento de junho de 2014, as mulheres representam 46,1% do quadro de servidores do Poder Executivo Federal. Apesar desse equilíbrio, o sexo feminino tem menos representatividade conforme aumentam o poder e os salários nos diferentes órgãos da administração federal.
No nível 1 dos cargos de direção e assessoramento superior, que são as funções diretivas com menos poder de decisão e remuneração média de R$ 8 mil por mês, as mulheres ocupam 45% dos postos. Já no nível 6, o dos cargos de maior poder decisório e salário médio (R$ 12,6 mil) e com maior proporção de gestores com nível superior (96%, diante de 66% do nível 1), o sexo feminino representa apenas 20% dos ocupantes.
A cúpula do governo Dilma traduz a desvantagem das mulheres na ocupação dos postos mais altos da administração pública. Dos 39 ministros, apenas sete são mulheres – 18% do total.
"O grau decrescente de participação das mulheres conforme se sobe o posto da hierarquia não é uma especificidade do governo federal, nem do setor público brasileiro, nem do Brasil. Ele está presente nas grandes empresas, está em outros países e em todas as esferas em que há alguma diferenciação de chefias e chefiados. O que ocorre é que o Brasil ocupa uma das piores posições nesse quesito, quando comparado ao cenário internacional", diz a cientista política Maria Aparecida Abreu, professora do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ippur-UFRJ) e pesquisadora de temas relacionados a igualdade de gênero e teoria política.
Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em março de 2012 mostrou que na década passada o sexo feminino não conseguiu diminuir a defasagem histórica no trabalho no setor público, ao contrário do que ocorreu em outros segmentos econômicos.
No ano anterior ao levantamento, a administração pública era o setor em que havia mais desigualdade nos salários entre homens e mulheres com nível superior de ensino em seis das principais regiões metropolitanas do País (Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre).
Em média, uma mulher com diploma universitário empregada no setor público nessas localidades ganhava apenas 60% do salário de um homem no mesmo perfil. Era o mesmo patamar do comércio, e ficava atrás da proporção de rendimentos na indústria (em que o salário médio feminino correspondia a 66% da remuneração média masculina), construção (62%), serviços prestados a empresas (66%), serviços domésticos (68%) e outros tipos de serviços (68%) entre trabalhadores que haviam concluído o Ensino Superior.
Segundo a pesquisa, em cinco desses sete setores econômicos a desigualdade salarial entre homens e mulheres com nível superior de escolaridade diminuiu de 2003 para 2011. As exceções foram a administração pública, que ostentou os mesmos 60% de oito anos antes na razão entre rendimentos de mulheres e homens, e o comércio, com leve aumento na desvantagem feminina – o índice passou de 61% para 60%.
Os empregados na administração pública na pesquisa do IBGE diziam respeito a trabalhadores dos três poderes nas esferas municipal, estadual e federal, servidores de carreira ou não (nomeados por gestores para cargos comissionados).

Imagem ilustrativa da imagem Administração pública reflete machismo do mercado de trabalho
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