Adiar IPO não significa cancelar, diz diretor da Nasdaq
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de abril de 2000
Por Renata de Freitas e Déborah Kanarek 
São Paulo, 18 (AE) - A decisão de quase duas dezenas de empresas, de adiar oferta pública inicial de ações (IPO, em inglês) na bolsa eletrônica Nasdaq não significa que elas desistiram de abrir o capital. Para o diretor regional da Nasdaq Internacional, Aquiles Couto, a volatilidade do mercado de capitais nas últimas duas semanas levou os bancos subscritores a segurar as operações.
"Isso não implica cancelamento", disse. "Se eu fosse um banco, também daria uma esperadinha", afirmou. Para a próxima semana estão marcados seis IPOs, a média da Nasdaq, e o nível de desistência poderá ser um termômetro da confiança dos agentes financeiros no final da correção dos preços das ações de empresas de tecnologia.
A AOL, por exemplo, maior provedor de acesso à Internet do mundo, programou o IPO da sua subsidiária latino-americana para este mês e, até este momento, não informou se haverá adiamento da operação. A AOL Latin America espera levantar US$ 575 milhões para investir em suas atividades na região.
A Nasdaq mostra sinais de recuperação nesta terça-feira pelo segundo dia consecutivo, depois da queda recorde de sexta-feira. Couto avalia que o movimento iô-iô nas bolsas é impulsionado pelos investidores em busca de oportunidades de negócios. "Essa turbulência toda traz altas perspectivas para quem está entrando no mercado", disse Couto. "Esse ajuste é necessário, senão ninguém conseguiria entrar", afirmou.
Para o diretor de e-business da consultoria A.T.Kearney, Bruno Laskowsky, a recuperação da Nasdaq é uma reprecificação das ações de empresas consideradas vencedoras pelo mercado. Os preços das ações de algumas das estrelas da Nasdaq nunca haviam chegado tão baixo.
A ação da Amazon, maior loja virtual do mundo, registrou baixa recorde na última sexta-feira, caindo para US$ 40,8. No pico da valorização, depois de um split de ações em setembro do ano passado, chegou a US$ 113, em 9 de dezembro. Até sexta-feira
a ação da Amazon registrava uma desvalorização de 43,9% no período de 52 semanas. Na segunda-feira, recuperou 0,4%, assim como subiram as ações da Microsoft, da Cisco, da Sun e do E-bay. Nesta terça-feira, registrava alta de 13% às 14h45.
"Vai haver quedas ainda maiores e reprecificação positiva daquelas empresas consideradas vencedoras", prevê Laskowsky. "Só as empresas que interferem na dinâmica tradicional têm lógica de existir", afirmou o consultor. Para ele, as companhias pontocom que abriram capital aproveitando apenas a bolha da Nasdaq serão incorporadas. "Tem algumas lógicas da velha economia que prevalecem: a consolidação e a busca de escala", disse Laskowsky.
Ações de empresas de Internet voltadas para a América Latina continuaram caindo na segunda-feira, mesmo com a recuperação da Nasdaq. Nesta terça-feira, no entanto, elas registram altas superiores às estrelas da bolsa eletrônica.
A Starmedia, portal de conteúdo, que havia registrado a maior baixa na última sexta-feira, chegando a apenas US$ 19 a ação, caiu ainda mais na segunda, abaixo dos US$ 18. Nesta terça
tinha alta de 17% até as 14h45. Logo após o IPO, em julho do ano passado, a ação da Starmedia alcançou os US$ 70.
O provedor El Sitio (no Brasil, O Site) teve ação negociada a US$ 44,8 em dezembro, mas registrou queda de 71% nas últimas 13 semanas e continua caindo. Ação estava em menos de US$ 9 nesta segunda-feira, recuperando também 17% nesta terça.
Para o consultor independente de telecomunicações John Paul Groom, depois da queda recorde da sexta-feira, as expectativas dos investidores tendem a ser diferentes. Com isso, acredita, a captação de recursos por parte das empresas de Internet deve se tornar mais difícil.
O consultor acredita que os investidores estão sendo pressionados pela expectativa de inflação e pelo andamento da ação do governo americano contra o monopólio da Microsoft. "Vão ponderar muito mais antes de comprar, o que deverá reduzir o ágio que vem sendo pago nos IPOs" disse Groom. Ele aposta que as ações, que estavam "mais do que supervalorizadas", ainda têm muito espaço para cair.
Para o presidente da Associação de Mídia Interativa (AMI), Antônio Rosa Neto, o ajuste da Nasdaq era previsível e a surpreendente alta do índice é que deveria ter sido encarada com preocupação. Ele descarta a possibilidade de que as empresas brasileiras de Internet sofram com essa desvalorização no mercado americano. Segundo Antônio Rosa, a procura por espaço publicitário na Internet brasileira é maior do que a oferta.


