RIO - Depois de mais de 14 horas de julgamento, três acusados de participação na Chacina da Candelária, onde oito meninos de rua foram assassinados em julho de 93, foram absolvidos ontem no 2º Tribunal do Júri do Rio. O tenente Marcelo Ferreira Cortes, o soldado Cláudio Luiz dos Santos (ambos da PM) e o serralheiro Jurandir Gomes de França, que ficaram quase três anos presos, choraram ao ouvir a sentença proferida pelo juiz José Geraldo Antônio, por volta das 5 horas. Os três prometem entrar com ação contra o Estado, exigindo uma indenização de US$ 3 milhões cada um pelo tempo que passaram na prisão.
Os jurados absolveram Cortes, Santos e França por unanimidade, 7 votos a 0. O Ministério Público pediu a absolvição dos réus alegando não existirem provas suficientes para condená-los. Apesar de Marcelo Cortes e Jurandir França terem sido apontados por testemunhas como chacinadores, a promotoria acompanhou a versão apresentada nas confissões dos ex-PMs Marcus Vinícius Emmanuel, Nelson Cunha (já condenados) e Marco Aurélio Alcântara, que inocentaram os réus.
O julgamento foi marcado por trocas de acusações entre antigos aliados no processo. O promotor Maurício Assayag acusou a artista plástica Yvonne Bezerra de Mello de ter tentado tumultuar o processo, apresentando ao Ministério Público, uma semana depois do crime, uma mulher que dizia ter denúncias a fazer sobre a chacina. Assayag lembrou que, na ocasião, a mulher - Maria José O’Neil, que se identificou como jornalista - atribuiu a chacina a uma entidade mística que reuniria integrantes da alta sociedade do Rio e seria ligada aos descendentes da família real brasileira.
Yvonne disse ter sido procurada pela mulher, que ‘‘dizia ter revelações importantes sobre a Candelária’’. ‘‘Eu apenas a encaminhei ao Ministério Público, que era a autoridade responsável pelo assunto’’, argumenta. A artista plástica, que realizava um trabalho voluntário junto aos meninos de rua que viviam nas imediações da Candelária, anunciou que vai entrar com um pedido de retratação pública junto ao Ministério Público pelas acusações que lhe foram feitas em plenário.
Comemoração Marcelo Cortes, Cláudio dos Santos e Jurandir França se abraçaram em comemoração ao resultado do júri. ‘‘Somos inocentes; isso ficou provado hoje para o mundo inteiro’’, vibrava França.
Tão logo termine o recesso do Judiciário - do dia 18 até 2 de janeiro - os três vão entrar com um pedido de indenização por danos morais e materiais decorrentes de erro judiciário junto a uma das varas da Fazenda Pública. O advogado de Cortes, Eckel de Souza, afirma que o valor da indenização foi calculado a partir de estimativas sobre a quantia gasta diariamente pelo Estado com cada preso. ‘‘Vamos pedir esse valor como indenização para cada dia que eles ficaram presos’’, afirmou.

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