PEC, Iugoslávia, 29 (AE-AP) - Acusados de ajudar os sérvios em sua repressão contra albaneses étnicos, os ciganos de Kosovo estão agora recebendo o mesmo tratamento por parte de refugiados retornando e - em pelo menos um caso hoje (29) - de forças da Otan investigando supostos crimes de guerra.
Milhares de integrantes da antes substancial minoria cigana de Kosovo fugiram desde o fim dos bombardeios da Otan, perseguidos por albaneses étnicos buscando vingança por atrocidades cometidas contra eles.
Albaneses étnicos acusam ciganos, ou Roma, de se unirem aos sérvios na repressão que provocou a intervenção da Otan. Albaneses étnicos denunciam que sérvios muitas vezes pagaram os Roma para fazer o trabalho sujo, como cavar fossas comuns e dando fim aos corpos de vítimas de massacres.
"Eles dizem que os Roma queimaram as casas deles, mas não foram eles, foram os sérvios. Somos inocentes", afirmou Nuri Gashi, uma cigana de 54 anos, na semana passada na cidade ocidental de Pec enquanto seus vizinhos albaneses étnicos saqueavam e incendiavam outras casas de ciganos ao redor da dela.
Os recém-retornados refugiados voltaram para suas vizinhanças e encontraram os corpos de 17 albaneses étnicos nos jardins e quartos de suas casas incendiadas. Sobreviventes do suposto massacre de 10 de maio no quarteirão dizem que dois Roma participaram da matança ao lado de paramilitares sérvios.
"Eles fizeram coisas horrorosas", afirmou o soldado do Exército de Libertação de Kosovo Nazmi Latifi, afastando curiosos das proximidades das casas incendiadas de ciganos e levando-os para um local onde foram descobertas covas recém-cavadas e corpos ainda não-enterrados de supostas vítimas do massacre.
Muitas das cerca de 100 famílias de ciganos da vizinhaça fugiram com os civis sérvios quando soldados iugoslavos se retiraram no começo do mês.
Incêndios criminosos e ameaças afugentaram o resto até o final da semana passada, permanecendo no local apenas Gashi, sua mulher, Shaban, 62 anos, e três outros ciganos.
"Todos os Roma, eles não se comportaram tão bem quanto esses dois", afirmou o albanês étnico Selim Salihi, apontando para os Gashis. "Nós vivemos com eles por 60 anos. E por gerações anteriores", disse Nuri Gashi.
"Não temos dinheiro, e nenhum lugar para ir," afirmou o marido dela, amedrontado por constantes visitas do ELK à sua casa.
Desde a guerra, entre ataques generalizados contra ciganos, um Roma foi encontrado espancado em poder do ELK em Pristina, corpos de ciganos com a garganta cortada foram descobertos em Pec e incontáveis incêndios criminosos destruíram até mansões de líderes Roma na capital kosovar de Pristina.
Mesmo durante a guerra, albaneses étnicos em campos de refugiados fora de Kosovo atacaram várias vezes ciganos, alegando tê-los reconhecido como participantes de atrocidades sérvias.
Nesta terça-feira, um cigano estava numa prisão em Pec controlada por forças italianas da Otan, tendo sido trazido por soldados do ELK que queriam que ele fosse investigado como um suspeito de crimes de guerra.
Evidências preliminares indicaram que o homem era um informante da polícia sérvia, disseram oficiais italianos, que se recusaram a identificar o homem ou dar mais detalhes do caso. O homem era o único conhecido suspeito de crimes de guerra, sérvio ou cigano, a ser detido na área.
Na Europa Oriental, os ciganos - que viveram por séculos às margens da sociedade - compõem uma grande mas às vezes desprezada minoria, acusada de roubos e outros crimes. Na Iugoslávia, os ciganos tradicionalmente tentam manter-se fora de foco, afastando-se da política e evitando problemas com autoridades locais, quaisquer que sejam estas no momento.
Funcionários humanitários da ONU dizem ser impossível determinar quantos Roma fugiram de Kosovo, ou até mesmo quantos viviam aqui antes da guerra. Alguns dias depois do acordo de paz
os Roma eram as pessoas mais em evidência nos vilarejos do oeste de Kosovo - depois de civis sérvios se retirarem e antes de retornarem os albaneses étnicos.
Suas casas eram as únicas não incendiadas pelos sérvios em alguns vilarejos, separadas devido à incrição "Romi" pintada na porta ou nos portões. Quando os albaneses étnicos voltaram, as mesmas inscrições que os salvaram fizeram com que se tornassem alvos.
"Basicamente, eles sempre foram acusados de aliados dos sérvios. Na antiga lei do galinheiro, eles eram superiores aos albaneses. Como resultado, eles estão sendo muito pressionados agora", disse Judith Kumin, uma porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) em Genebra.
Em Pec, saques e incêndios de casas de ciganos e sérvios se intensificaram à medida que os refugiados retornavam, acalmando-se hoje, depois de muitas casas ciganas terem sido queimadas e a maior parte dos sérvios e Roma da cidade terem fugido.
Nuri e Shaban Gashi deixaram nesta terça-feira a casa na qual viviam no quarteirão cigano de Pec. Um recém-chegado casal de albaneses étnicos, Haxhi e Emini Krasniqi, estavam no portão, recolhendo pedaços de madeira que, eles dizem, foram tirados de sua casa. Os Krasniqis já encontraram e removeram uma máquina de lavar roupas, disseram.
"Ontem, quando a mulher Roma nos viu voltando, ela apenas embalou algumas coisas e foi embora", disse Haxhi Krasniqi. "E quando vasculhamos a casa, achamos nossas coisas."
Antes de partir, Nuri Gashi disse a vizinhos que pegou os bens da família apenas para salvá-los quando os sérvios queimassem a casa. Ninguém sabia hoje o que aconteceu com seu marido.

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