Acusado de roubar lenço está preso há 16 dias
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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
Flora Guedes<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Há 16 dias preso, sob a acusação de participar de um roubo que afirma com fervor não ter praticado, o pintor autônomo piauiense Jurandir Veloso da Costa, 35 anos, amarga o sentimento de injustiça e a dor de pagar por um crime que diz não ter cometido. O objeto roubado foi um lenço, avaliado pela vítima no valor de R$ 5,00. Jurandir é réu primário, não tem antecendentes criminais, possui residência fixa e tem profissão lícita, o que segundo o seu advogado de defesa, Marcos César Portes, lhe assegura o direito constitucional de ''presunção da inocência'' que prevê que ninguém pode ser condenado sem ser devidamente julgado.
No dia 5 de dezembro, por volta das 14 horas, Jurandir foi abordado por policiais militares e detido junto com outros três homens, próximo a Praça Zacarias, no Centro de Curitiba. Disse que foi xingado e agredido com barras de ferro, antes de ser colocado dentro da viatura e encaminhado ao 1º Distrito Policial. Ele contou que tinha descido do apartamento, onde mora com o irmão, na Visconde Guarapuava, e antes mesmo de entrar na loja para comprar algumas roupas, foi levado pela PM até onde os outros três rapazes estavam sendo revistados. Jurandir não estava com os documentos.
''Eles me acusavam de ser o Ceará, o quarto homem que tinha roubado um senhor no Centro. Eu dizia que não era essa pessoa, que não tinha feito nada. Inclusive os rapazes gritavam que eu era inocente'', contou Jurandir, que concedeu a entrevista no 12º Distrito Policial, onde está detido. ''Pedi, inclusive, que eles fossem comigo até a lanchonete, na Marechal Floriano, onde estava fazendo um serviço de pintura, que eles iriam confirmar que sou um homem trabalhador, honesto. Eu implorei, mas eles não me ouviram. Nunca roubei na minha vida'', lembrou o pintor, segurando as lágrimas.
''Quando cheguei na delegacia estava apavorado, muito assustado e não acreditava que aquilo estava acontecendo comigo. Não sabia o que fazer. Veja que o senhor que foi roubado não me reconheceu, mesmo assim eles me prenderam'', disse ele, que mora em Curitiba há quatro anos. No mesmo dia em que foi preso, os três irmãos e a namorada de Jurandir providenciaram um advogado para defendê-lo. O pedido de liberdade provisória foi negado pela Vara de Inquéritos Policiais de Curitiba. O advogado entrou, então, com o pedido de habeas corpus no Tribunal de Justiça, que não concedeu a liminar, alegando ''garantia da ordem pública''.
''Sou uma pessoa da roça, trabalhei muito a vida inteira até que vim para cidade e aprendi uma profissão. Na quarta-feira passada, eu já tinha comprado passagem para ir ao Rio Grande do Sul, com meu irmão, para a gente vender água e refrigerante nas praias, porque o serviço de pintura é fraco nessa época do ano. Era o nosso dinheirinho do Natal'', lamentou. ''Não sei como estou aguentando isso aqui. Os outros presos me ajudam, dizem que eu vou sair logo, porque sou inocente. A pior coisa é você pagar por um crime que não cometeu. Meu único conforto é ler a Bíblia, é Deus'', confessa Jurandir, que já não segurava mais as lágrimas.


