Acusado de liderar quadrilha tenta liberdade após retratação de motorista
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quarta-feira, 05 de janeiro de 2000
Por Kelly Lima 
Igarapava, SP, 05 (AE) - Os advogados de Artur Eugênio Mathias, acusado pela CPI do Narcotráfico de ser "o braço jurídico" do crime organizado em Campinas (SP), entraram hoje com recurso na Justiça de Igarapava (SP) para revogar sua prisão. Mathias, ex-advogado de Willian Sozza, apontado como chefe do braço campineiro da quadrilha que vem sendo investigada pela CPI do Narcotráfico, está preso desde o dia 30 de novembro, após ser acusado de organizar roubos de cargas no norte do Estado de São Paulo por um de seus ex-clientes, o motorista Adilson Frederico Luz. Os advogados pretendem entrar também com uma ação de suspeição contra o Ministério Público por coação de testemunha.
Segundo Caio Carneiro Campos, advogado de Mathias, as acusações que levaram à prisão de seu cliente ficaram "enfraquecidas" desde a retratação do motorista, feita primeiramente em depoimento à seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no dia 9 de dezembro, e depois junto à corregedoria da Polícia Civil em São Paulo, no dia 29 de dezembro. Na ocasião, Luz afirmou que havia feito as denúncias contra Mathias, após ter sido coagido por dois promotores, Ricardo Silvares, do Ministério Público de Campinas, e Rogério Sanches Cunha, da Promotoria de Justiça de Igarapava, além de um delegado identificado apenas como Pio. Ele teria, então, confessado que participou do roubo de carga que levou à sua prisão, além de outros quatro, todos comandados por Mathias. No dia seguinte, foi revogada sua liberdade provisória pelo juiz Humberto Aparecido da Rocha, de Comarca de Igarapava.
O motorista era aguardado hoje no Fórum de Igarapava, para audiência solicitada por sua advogada, quando faria a retratação
mas não compareceu. "Hoje ele é tido como foragido da Justiça", disse o juiz Humberto, o mesmo que concedeu a liberdade provisória de Luz no final de novembro. "O motorista foi liberado por ser réu primário e ter residência fixa", disse o juiz. "A partir do momento em que ele foi procurado em sua residência pela Justiça e não se encontrava em casa, sua liberdade está suspensa."
A advogada de Luz, Nórica Morais Ghirotto, diz que seu cliente não compareceu para prestar o depoimento porque tem medo de ficar preso em Igarapava, já que sua liberdade foi revogada. "Ele corre risco de vida se for preso lá, justamente na cidade onde está o delegado Pio, que ele está acusando".
O advogado Caio Campos interpretou a suspensão da liberdade provisória de outra maneira: "Estão querendo impedir o Luz de depor para continuar incriminando meu cliente, que não passa de um bode expiatório, já que não existiam provas contra ele, a não ser a denúncia do motorista, que agora também já foi retirada", argumentou. Campos pretende apresentar uma ação de suspeição contra o Ministério Público. "O motorista alegou coação feita por parte do MP e isso é uma fraude processual que tem que ser apurada por instância superior", disse.
O advogado de Mathias acusou ainda a CPI do Narcotráfico e o Ministério Público de Campinas de terem retirado, durante diligência ao escritório de Mathias, documentos relacionados aos clientes do advogado. "Com base no nome desses clientes, entre eles, o motorista Adilson Frederico Luz, a Promotoria iniciou pressão para tentar mudar o depoimento de um deles e incriminar meu cliente", disse.
Refém - Para o promotor Rogério Sanches Cunha, um dos acusados por Luz de coação, o motorista "não está mais agindo com as próprias pernas". "Adilson Luz é hoje um refém nas mãos da quadrilha do narcotráfico e não pode responder por seus atos. Sua retratação já é uma demonstração disso", disse ele. Segundo Cunha, o motorista, que havia sido preso em maio do ano passado, só concordou em mudar seu depoimento e denunciar Mathias após este ter deixado a causa. "Quando soube que Mathias, que até então era seu advogado, havia abandonado a causa, o motorista se revoltou e decidiu, por conta própria, abrir a boca e fazer as delações. Ninguém o coagiu a nada", afirmou. Luz, na retratação
diz que Mathias deixou a causa porque ele não tinha dinheiro para pagar seus honorários.
O promotor disse ainda ter encontrado uma série de contradições na retratação do motorista. "Uma pessoa comum não saberia o procedimento de se dirigir a uma corregedoria acompanhada de duas testemunhas para fazer a retratação." E questionou: "Teria feito isso um dia depois de denunciar à imprensa de Campinas que estava sendo perseguido por membros da quadrilha que estavam exigindo sua retratação?". O promotor referia-se à reportagens publicadas no dia 9 de dezembro em jornais de Campinas.
Cunha alegou ainda que o depoimento de Adilson Frederico Luz foi "rico em detalhes". "Eu não teria condiçoes de incutir tantos detalhes na cabeça de uma pessoa em tão pouco tempo." O promotor confirmou que a liberdade provisória de Luz havia sido concedida por conta do benefício previsto 9.807/98, que prevê o perdão judicial para réus primários, com bons antecedentes, que contribuam com a Justiça e delatem membros da quadrilha da qual fizeram parte. "Se ele sabia que estava em liberdade provisória e que teria o perdão judicial no final do processo, não havia por que fazer a retratação justamente no dia em que iria para Brasília fazer a acareação", disse, referindo-se à convocação pela CPI do Narcotráfico para ser colocado frente a frente com Mathias. "Tivemos que revogar sua liberdade provisória até mesmo pela sua segurança. Ele deve estar pedindo para ser preso e ficar livre dessa quadrilha", disse o promotor, contrário à tese de que a revogação da liberdade provisória teria afastado Luz da audiência de hoje em Igarapava.
O promotor Ricardo Silvares, do Ministério Público de Campinas, outro dos acusados de coação por Luz, também diz que o motorista está nas mãos da suposta quadrilha: "Ele está sendo pressionado." Silvares, um dos que ouviram o depoimento de Luz no dia 26 de novembro, em Igarapava, disse que a história contada por ele na época era consistente. "Eram histórias com riqueza de detalhes, que agora estão sendo apuradas em diligências", diz Silvares. Segundo ele, apenas uma história contada por Luz na época pareceu inverossímel: "Ele disse que testemunhou, em um bar, William Sozza, Ricardo de Lima e Arthur Eugênio Mathias fazendo uma partilha de dinheiro que foi trazido até o lugar em uma mala."
Em entrevista à Agência Estado, Luz negou qualquer acordo com o advogado Mathias. Dizendo-se arrependido por ter "inventado uma história", afirma que com a retratação pretende denunciar ação irregular de promotores e deputados da CPI do Narcotráfico que teriam "ferrado" com ele. O motorista garante que permanecerá foragido, pois, preso, não teria qualquer garantia de vida.


