Londrina - Considerado inimigo das dietas e da boa alimentação, o açúcar agora pode se redimir. Não aquele produzido a partir da cana-de-açúcar, e sim o presente em alguns alimentos como a banana, a cebola, o alho, e em alta concentração na raiz da chicória. Segundo uma pesquisa feita na Unifil, em Londrina, o açúcar, chamado de inulina, pode ser usado na prevenção e no tratamento do câncer de intestino. Além disso, por ser uma espécie de ‘‘açúcar light’’, também favorece o emagrecimento. O estudo é da formanda em biomedicina Mariana de Oliveira Mauro, com orientação do biólogo e professor Rodrigo Juliano Oliveira.
  A idéia da pesquisa, segundo Mariana, era estudar a ação da inulina antes, durante e depois da formação da lesão que pode levar ao câncer para ver em que momento ela iria atuar. ‘‘O que se sabe é que a inulina, assim como outras fibras, não é processada pelas enzimas da digestão, e chega quase intacta ao intestino, onde é fermentada. E é o produto dessa fermentação que tem ação na prevenção’’.
  Oliveira ressalta que apesar do uso da inulina como agente preventivo já ter sido descrito em artigos científicos, o trabalho de Mariana é pioneiro justamente por testar diferentes protocolos. ‘‘Isso não foi descrito na literatura ainda, o mecanismo de ação dessa inulina para fazer ou o tratamento ou a prevenção do câncer’’, afirma.
  Durante 12 semanas, ela estudou 80 camundongos divididos em sete grupos experimentais. O primeiro, considerado o grupo controle, não recebeu inulina, nem uma substância chamada dimetilhidrazina que, na mucosa intestinal, tem ação inflamatória e é formadora de lesões pré-neoplásicas chamadas de focos de criptas aberrantes. O segundo grupo recebeu só a substância indutora das lesões e o terceiro só a inulina. O restante dos grupos teve induzida a formação de lesões, mas no quarto grupo, a inulina foi administrada antes do dano, no quinto grupo foi administrada ao mesmo tempo que o dano, no sexto grupo após a lesão, e no sétimo grupo o açúcar foi administrado de forma contínua.
  Nos grupos que receberam a inulina foram utilizados 50 miligramas de açúcar por quilo de peso, diariamente. Essa dosagem, considerada para o ser humano, seria por volta de três gramas, menos que uma colher diária de inulina.
  Na avaliação foram usados dois testes - de sangue, para comparar indicativos de lesão no DNA que poderiam levar ao câncer, e do intestino, para visualizar as lesões já instaladas. Os resultados foram animadores nos dois. No exame de sangue, a redução de danos variou de 77% naqueles animais que tiveram lesões e uso da inulina de forma simultânea, e chegou a 121% naqueles que tiveram o pré-tratamento com o açúcar (veja quadro).
  Os números acima de 100% segundo o professor significam que a inulina protegeu não só dos danos causados pela dimetilhidrazina, mas também daqueles danos usuais ao DNA causados no dia-a-dia por estresse, exposição à luz, fumo e alimentação, se considerados seres humanos.
  No segundo teste, que visualizou os focos de criptas aberrantes, foram avaliados parte do intestino dos camundongos, e a redução de danos mínima ficou em 55% naqueles animais que receberam inulina após a lesão, e chegou a 87% naqueles que tiveram administração simultânea. ‘‘Os dados mostram que esse açúcar tem boa capacidade de prevenção, mas que tem ação mesmo com o câncer já instalado. Não podemos falar em cura, mas em regressão do câncer e em melhoria da qualidade de vida’’, avalia o professor.
  O trabalho avaliou o uso do açúcar da raiz da chicória, mas, segundo eles, é possível transpor pelo menos parte dos resultados benéficos para o consumo de produtos como cebola e alho crus, banana, aspasgos e cevada, que também têm a substância.

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