Acuado, Pitta entrega dossiê a procurador-geral
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quinta-feira, 08 de abril de 1999
Por Fausto Macedo 
São Paulo, 08 (AE) - Isolado políticamente e acuado pela onda de denúncias de corrupção em seu governo, o prefeito Celso Pitta (sem partido) entregou hoje (08) à tarde ao procurador-geral de Justiça, Luiz Antônio Marrey, um dossiê sobre irregularidades na administração pública.
O encontro teve início às 17h04 e estendeu-se por 41 minutos. Acompanhado dos secretários do Governo, Carlos Augusto Meimberg, e dos Negócios Jurídicos, Edvaldo Britto, o prefeito parecia tenso quando deixou o gabinete de Marrey, que incorpora a figura de carrasco de Pitta - o prefeito está com os bens bloqueados e condenado por improbidade em duas ações civis movidas por promotores de confiança de Marrey.
O dossiê de Pitta é um amontoado de papéis - umas 300 folhas, com uma relação de nomes - espremidos em uma pasta de plástico verde com elástico. Em meio aos documentos, havia uma outra pasta de papelão, preta, e um caderno volumoso espiral. Pitta fez mistério sobre o conteúdo da papelada.
Deu apenas uma pista ao afirmar que "o problema de corrupção na Prefeitura ocorre há várias administrações". Limitou-se a definir a peça como "um conjunto de informações" que podem ser "pertinentes e úteis" às investigações do Ministério Público Estadual sobre os focos de corrupção. Insistiu que "não se trata de denúncias; são informações".
A primeira página da pasta é um ofício de Pitta a Marrey: "Esta administração está decidida a eliminar definitivamente todas as formas de corrupção e irregularidades existentes na máquina administrativa; determinei a elaboração de levantamento em diversas áreas cujos primeiros resultados ofereço a título de colaboração."
O gesto de Pitta, ao procurar Marrey, tem uma conotação especial. O prefeito sabe que as investigações avançam velozmente sobre importantes setores de sua administração. Com essa tentativa de aproximação, poderia estar buscando neutralizar eventual apuração em sua direção. "Não temo as consequências políticas ou criminais dessa investigação do Ministério Público e da polícia", rebateu o prefeito ao ser questionado sobre suas intenções ao procurar Marrey.
Após a reunião com o procurador-geral, Pitta disse que aquilo - a entrega do dossiê - era uma demonstração de sua disposição em "varrer todas as irregularidades e dar o exemplo para este País". Afirmou que mandou abrir "todas as portas e arquivos" da Prefeitura para facilitar o trabalho do Ministério Público. Prometeu retornar à Procuradoria-Geral em duas semanas com "dados complementares" do levantamento que realiza.
Falou sobre seu padrinho político, o ex-prefeito Paulo Maluf (1993-96): "Nossas relações sofreram um trinco... desliguei-me do PPB." Defendeu as contratações de mão-de-obra das empresas municipais como a Anhembi, a Emurb e a Prodam. "Não são irregulares ou ilegais; vários assessores de secretários já eram funcionários de carreira da Prodam."
Em meio a promessas de que pretende moralizar a máquina, Pitta rebateu a acusação de que não mandou apurar as denúncias de corrupção. "Você quer saber se fui omisso?", disse. "Não houve omissão, não houve qualquer ato administrativo que não tivesse o objetivo de apurar denúncias levadas ao meu conhecimento."
Aproveitou para anunciar a abertura de nova licitação para o serviço de limpeza pública, depois de ler o relatório sobre o caso Enterpa. "Recebi hoje de manhã relatório conclusivo apontando indícios de rompimento de cláusulas contratuais que justificam a punição da contratada."
Pitta anunciou também que pretende interpelar judicialmente o vereador Cosme Lopes (PPB) que "cometeu equívoco muito grave" ao afirmar que ele tinha conhecimento da denúncia sobre a empresa Panco. "Me ponho à disposição da CPI (dos Fiscais) para qualquer esclarecimento, não há nada o que temer."
Enquanto Pitta falava, manifestantes pediam seu impeachment em frente da Câmara. "Todos aqueles que querem o meu impeachment são contra o trabalho de moralização que estamos fazendo, querem a permanência dos focos de corrupção."
Depois que Pitta saiu, Marrey segurou a pasta verde meio sem jeito - as folhas saíam pelos lados. "Vou examinar o que há aqui, ainda não sei se são dados absolutamente relevantes ou simplesmente dados ou estatísticas." Alguém disse que poderia haver um "cadáver" na pasta. "Mas tem cheiro?", esquivou-se. Perguntaram a Marrey sobre o que achava da cor da pasta. "Pelo menos é verde, não é rosa", disse, numa alusão a outro escândalo, envolvendo o sistema financeiro.


