Acordo prevê inflação de 17% e queda de 30% em importações
São Paulo, 06 (AE) - As novas metas da política econômica brasileira negociadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI) são chegar ao fim de 1999 com o dólar valendo cerca de R$ 1,75 e uma inflação de até 17%, mas com taxa anual inferior a 10%. E para manter o câmbio e a inflação sob controle, o governo brasileiro se comprometeu a fazer um ajuste fiscal mais rigoroso. Para 1999, prometeu um superávit primário (a diferença entre as receitas e as despesas do governo, sem incluir os pagamentos de juros) de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB). No acordo anterior, o superávit primário previsto era de 2,6% do PIB.
Os dados do novo acordo com o Fundo serão divulgados no início da semana, depois de passar por uma revisão, hoje e amanhã (07). Com o acerto, o Brasil deve ter acesso a mais US$ 9 3 bilhões do pacote de ajuda financeira internacional. Este segundo desembolso servirá para reforçar as reservas cambiais brasileiras e pode, segundo analistas, forçar a cotação do dólar ainda mais para baixo.
Segundo técnicos do Ministério da Fazenda, o governo poderá reduzir seu déficit em conta corrente para 3% do PIB (cerca de US$ 16 bilhões). Para isso, está contando com um superávit na balança comercial de quase US$ 11 bilhões. Nas contas, já foram incluídos os reajustes dos preços do setor energético e de certas tarifas, assim como os cortes nos investimentos das empresas estatais e nos incentivos às exportações.
Recessão - Para economistas consultados hoje pela AGÒNCIA ESTADO, a estimativa de um superávit comercial de US$ 11 bilhões este ano é o dado mais surpreendente desta renegociação com o Fundo. Para que essa meta seja possível, calculam, é preciso que as importações brasileiras caiam cerca de 30% este ano e uma queda deste tamanho dependeria de uma recessão mais profunda no Produto Interno Bruto (PIB), que a redução de 3,5% a 4,0% estimada por governo e FMI.
"Um superávit deste tamanho é uma hipótese muito otimista", avalia o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. "E dependeria muito mais de uma queda forte das importações do que de um aumento das exportações", acrescenta. Na estimativa da Tendências Consultoria Integrada, da qual Mailson é sócio, o saldo da balança ficaria positivo em US$ 4 bilhões.
Odair Abate, economista-chefe do Lloyds Bank, diz que este número pode considerar que a queda das importações brasileiras será semelhante à coreana, que ficou em 35% e decorreu de uma recessão superior a 6% do PIB. Abate trabalhava com uma queda no ano semelhante à observada em fevereiro, que foi de 20%.
Câmbio - Mailson chama a atenção para o saldo em conta corrente de US$ 16 bilhões (3% do PIB) e a cotação média do dólar a R$ 1,75 no fim do ano. "Essas premissas indicam que o governo e o FMI devem estar trabalhando com uma desvalorização média no ano superior à do mercado", observa o ex-ministro da Fazenda. Na Tendências, a previsão mais pessimista é chegar em dezembro com uma taxa do dólar equivalente a R$ 1,70. "Na média do mercado, a taxa esperada varia entre R$ 1,60 e R$ 1,65", diz Mailson.
A projeção do governo, diz, pode considerar uma dificuldade maior na recuperação de linhas de crédito externo. "Essa avaliação poderia justificar a linha mais lenta de recuperação do câmbio", explica.
O Departamento Econômico do Lloyds Bank refez esta semana suas projeções para a economia e estimou que a cotação do câmbio pode fechar o ano em R$ 1,80. Esse valor embute uma valorização nominal do dólar de 50% e real entre 25% e 30% (descontando uma inflação estimada por Abate em 19% no ano).
O saldo em conta corrente de US$ 16 bilhões foi considerado factível por Abate. Sua última projeção é um saldo entre US$ 16 bilhões e US$ 18 bilhões, representando 2,85% do PIB.
Inflação - A revisão do acordo com o FMI projeta uma inflação de 17% no ano, o que supera as estimativas de economistas e consultores para a inflação para o consumidor (cujas projeções médias apontam índices entre 12% e 15%) e fica um pouco abaixo das estimativas para a inflação previstas no Índice Geral de Preços ao Mercado (IGP-M).
No fim do ano, a inflação estará projetando uma taxa anualizada de 10%, o que significaria uma inflação média mensal de 0,8%, calcula Abate. A diferença entre as projeções do mercado e os 17% (se eles estiverem relacionados com os índices para o consumidor) pode ser explicada pelo aumento das tarifas públicas e também pelo ritmo menos intenso de queda da cotação do câmbio. O economista-chefe do Lloyds espera uma inflação de 19% pelo IGP-M e considerou o número de 17% como "factível".





