Rio de janeiro, RJ- O Brasil e a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) cederam sobre alguns dos pontos que emperravam a avaliação da fábrica de enriquecimento de urânio que o governo federal está implantando em Resende, no estado do Rio de Janeiro. As negociações podem dar fim à polêmica em relação à inspeção da fábrica.
O Brasil concordou em mostrar mais tubos, válvulas e conexões e a agência abandonou a idéia de ter ''acesso irrestrito'' às instalações, segundo o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Odair Gonçalves.
O grande segredo da fábrica de urânio, no entanto, deverá permanecer trancado a sete chaves: as centrífugas. A forma, a altura, as dimensões e o material que compõem a centrífuga permanecerão desconhecidos para os representantes da agência.
A CNEN alega necessidade de proteger a tecnologia nacional para não revelar dados, como o número de centrífugas existentes. Sem isso, é impossível calcular a capacidade de produção da fábrica.
Hoje, representantes da agência farão uma espécie de pré-inspeção. Segundo o presidente da CNEN, Odair Gonçalves, o objetivo é verificar se a proposta brasileira para a primeira etapa -a de verificação do desenho- está de acordo com as necessidades da agência.
Existem duas etapas de checagem pela agência para este tipo de projeto: a verificação de desenho e a rotina de inspeções. A primeira consiste em conferir se o proposto na planta da fábrica foi efetivamente posto em prática.
A segunda significa observar o andamento da fábrica, quando ela entrar em funcionamento. O que os representantes da agência devem definir até quarta-feira é o procedimento necessário para realizar a verificação do desenho.
O grupo que vai avaliar a fábrica é composto por um sul-africano, um francês e um americano. Mesmo sem revelar os cargos, o presidente da CNEN destaca que eles ocupam cargos superiores ao de técnicos.
Caso o procedimento proposto pelo Brasil seja aprovado, dentro de uma ou duas semanas a agência enviará técnicos para realizar a checagem propriamente dita.
Apenas sete países utilizam a tecnologia de ultracentrifugação. Segundo a CNEN, no entanto, nenhum usa a levitação. A centrífuga brasileira roda sem eixo, sustentada por um campo eletromagnético. Os demais trabalham com difusão gasosa, uma tecnologia considerada menos eficiente.
O presidente da CNEN não explicou como as máquinas ficarão ''escondidas''.
Hoje, existem painéis que separam as centrífugas das demais áreas da fábrica.
A hipótese de rebaixamento dos painéis foi negada por Gonçalves. Segundo ele, as atenções vão se concentrar nos tubos, conexões e válvulas de onde é possível examinar se há ou não proliferação do material.
Na prática, isso significa checar a entrada e saída de material. Caso os representantes da agência aprovem a sistemática e os inspetores cheguem a um acordo sobre a checagem da planta, a fábrica entrará na fase de comissionamento. Até agora, não há material nuclear circulando na centrífuga. No comissionamento, pequenas quantidades começam a ser testadas. Esta etapa dura, em média, seis meses.
Durante este período, se tudo correr como o previsto, o Brasil começará a negociar a rotina de inspeção, quando a fábrica realmente começar a produzir em escala.
O projeto brasileiro é modesto. A estimativa da CNEN é de uma produção na casa do milhar, enquanto usinas de outros países trabalham com milhões. O projeto ainda está longe da viabilidade comercial, o que o Brasil tenta proteger agora é a vantagem potencial.
''A gente tem muito urânio, nada impede que no futuro, dominando essa tecnologia a gente consiga expandir essa atividade e torná-la realmente uma grande vantagem comercial'', afirmou Gonçalves. Segundo o presidente da CNEN, o cuidado estratégico é característica de todos os países que trabalham com energia nuclear.
A planta da fábrica só permite o enriquecimento de urânio a 5% - suficiente para geração de energia nuclear. Para a bomba atômica, é necessário o enriquecimento a 99%.

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