Acordo permite colheita das lavouras da Fazenda Boi Preto
Paulo Pegoraro
De Santa Tereza do Oeste
Um acordo inusitado permitiu que lavradores sem-terra realizassem ontem a colheita de parte das plantações que haviam feito na Fazenda Boi Preto, no município de Santa Tereza do Oeste (25 quilômetros a oeste de Cascavel), da qual foram despejados pela Polícia Militar no final da semana passada. O acordo foi negociado entre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Incra e a empresa J. Malucelli, de Curitiba, dona da fazenda, de 196 alqueires. A colheita foi acompanhada por policiais militares.
A área havia sido ocupada há dois anos por 60 famílias, das quais apenas 17 permaneceram no local. A Fazenda Boi Preto está declarada de interesse para fim de desapropriação, e está na faixa internacional de fronteira (de 150 quilômetros). Os proprietários da faixa serão obrigados a comprovar, até o final do ano, a legalidade de títulos que detenham por decisão da União. Grande parte dos documentos foi expedida indevidamente pelo Estado na época do governo de Moisés Lupion.
Por estes motivos, o MST contesta a ordem judicial de reintegração de posse, expedida no final do ano passado, e seu cumprimento pela PM. Também a chefe regional do Incra em Cascavel, Sessuana Polanski Paese, observa que o despejo foi surpresa, mas preferiu não questionar a decisão da Justiça. Segundo ela, o processo de desapropriação ainda tramita, e falta apenas a imissão de posse ao Incra, o que permitiria realizar assentamento de famílias.
Os sem-terra despejados estão alojados em um frigorífico inacabado na vizinha cidade de Lindoeste, em precárias condições inclusive sem alimentos. Segundo a agrônoma Martina Urtenberger, do MST, o Incra não conseguiu cestas básicas, por isso intermediou o acordo com a J. Malucelli, que ofereceu um caminhão para o transporte do feijão, milho, arroz e batata, colhidos ontem, até o frigorífico.
Martina relata que cada família plantou em cerca de 2,5 alqueires. Tudo iria se perder, se não houvesse o acordo, porque a empresa não tem interesse na colheita, disse. A J. Malucelli quer empreender projeto de reflorestamento no local.





