Paris, 06 (AE) - Esqueçamos por um instante a agonia de Kosovo para saudar um mínúsculo raio de luz que brilhou sobre outra terra-mártir, no outro lado do mundo, em Timor Oriental, uma das ilhas do imenso arquipélago da Indonésia.
Este raio de luz foi o acordo assinado em Nova York entre a Indonésia e Portugal para preparar uma possível independência de Timor Oriental. Por que Portugal? Porque a ONU jamais reconheceu a anexação de Timor Oriental por parte da Indonésia, em 1975, e considera sempre que Portugal é a "potência administradora" de Timor Oriental. (A ilha de Timor , descoberta pelos portugueses em 1520, foi posteriormente compartilhada entre os holandeses, a oeste, e os portugueses, a leste). Depois da Segunda Guerra Mundial, no vasto movimento de "descolonização", a Indonésia conseguir da Holanda sua independência.
Nasceu então uma nova potência gigantesca: 3.000 ilhas (algumas delas muito grandes, como Java ou Sumatra), 220 milhões de habitantes, em sua maioria muçulmanos. A ilha de Java e seus habitantes, os javaneses, exercem uma influência esmagadora sobre o destino deste imenso conjunto.
Mas, nesse conjunto, Timor Oriental era diferente: tinha sido colônia de Portugal e, além disso, era um país cristão. Apesar dessas singularidades, a jovem Indonésia invadiu Timor Oriental em 1975 e o anexou ao seu território. Os timorenses se revoltaram. Os soldados indonésios foram ferozes: 200 mil mortos de um total de 800 mil habitantes.
Muito recentemente, o Timor Oriental reencontrou um pouco de esperança quando o tirano Suharto foi derrubando pelas manifestações de rua em 1998 e substituído por um presidente civil e mais calmo, Yussuf Habibie. Este prometeu organizar um plebiscito em Timor Oriental para que os timoresnes decidissem seu destino.
Mas, apesar disso, a calma não voltou: ao longo dos primeiros meses deste ano, a ilha de Timor Oriental foi abalada por atos de violência.
Há menos de um mês, em abril, os milicianos ("vagabundos e bandidos") massacraram a golpes de machete 20 timorenses suspeitos de serem partidários da independência. Será que o acordo entre a Indonésia e Portugal, assinado sob a autoridade da ONU, irá finalmente arrancar esta ilha longinqua e esquecida de um antigo horror de 20 anos? Gostaríamos de acreditar nisso, mas sem dúvida será preciso deplorar ainda algumas infâmias.
O Exército indonésio é fortemente hostil à independência de Timor Oriental. E o Exército é representado por essas "milícias" brutais e exaltadas que só se sentem felizes com o sangue.
Tudo irá depender do presidente indonésio, Habibie. Ao que parece, o líder do arquipélago é sincero. Concorda que a ONU organize um plebiscito em julho. Compromete-se até a conceder a independência ao território, se as urnas o exigirem.
Mas será que Habibie é realmente sincero? E se ele estivesse usando um discurso pacífico, mas secretamente encorajando seu Exército a erradicar o vírus independista? E, mesmo na hipótese de que Habibie e o poder civil estivessem claramente de acordo com o processo de autodeterminação, será que eles terão a força para se opor aos ardis tenebrosos de um Exército todo-poderoso?
É preciso não esquecer que os sobressaltos em Timor Oriental não são isolados na Indonésia. Em numerosas ilhas, ardem outras febres nacionalistas: no norte de Sumatra, existem guerrilheiros muçulmanos que querem separar-se de Jacarta. Nas Molucas, ocorrem manifesstações exaltadas dos cristãos. Na própria Java, a ilha-piloto, os confrontos interreligiosos se multiplicam. Até mesmo os "papus" de Irian Java (Papua Nova Guiné) têm sede de independência ou de autonomia.
Esta é a preocupação do Exército: que a eventual secessão de Timor Oriental seja o sinal de perturbações em todo o arquipélago e que a jovem Indonésia se torne, dentro em breve, lá nos belos mares do Sul, apenas uma porcelana quebrada.

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