"Acordo" de Kosovo salva o mínimo
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 1999
Por Paul Taylor, editor diplomático 
RAMBOUILLET, França, 23 (AE-REUTERS) - Poderia ter sido pior, mas não muito mais.
Depois de 17 dias de negociações indiretas por intermédio de mediadores internacionais em um castelo nas proximidades de Paris, nem os sérvios nem os albaneses étnicos estavam dispostos a assinar um acordo político sobre autonomia em Kosovo nesta terça-feira (23).
Outra conferência foi marcada para o mês que vem com a finalidade de discutir a questão crucial da implementação militar de qualquer autonomia para a província sulista sérvia.
Enquanto isto, o banho de sangue continua. Milhares mais de refugiados albaneses étnicos partiram de suas casas desde que as conversações em Rambouillet começaram, e uniram-se a cerca de 250.000 pessoas que ficaram desabrigadas em um ano de guerra nos altamente inflamáveis Bálcãs.
Pelo menos 2.000 pessoas foram mortas desde que o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, lançou uma repressão contra guerrilhas separatistas. Parece provável que mais combates ocorrerão nas três semanas de vazio político antes da próxima conferência.
Mesmo assim, o Grupo de Contato de seis nações proclamou que havia alcançado um acordo sobre uma substancial autonomia para Kosovo e tentou manter as aparências falando sobre no máximo um acordo parcial.
"Salvamos o que pudemos. Não trata-se de paz no nosso tempo, mas também não foi um completo fiasco", disse uma autoridade britânica.
A secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright, que investiu substancial prestígio e tempo tentando persuadir os albaneses étnicos a aceitar um acordo dando a eles uma autonomia protegida pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) mas não a independência, tentou manter a aparência frente ao semifracasso.
Ela disse que o impasse em Kosovo foi quebrado decisivamente e a ameaça de bombardeios da Otan contra a Sérvia mantém-se intacta se os albaneses étnicos aceitarem o acordo e os sérvios o recusarem.
Mas isto é um grande "se". A primeira reação do reepresentante político do Exército de Libertação do Kosovo (ELK), Adem Demaci, foi denunciar as conversações e conclamar à luta armada até a vitória.
"O resultado foi longe do preto e branco que os americanos buscavam. Eles não foram nem capazes de conseguir que seus protegidos, os kosovares albaneses, assinassem", disse um diplomata europeu.
Aviões de combate da Otan permanecerão em terra por pelo menos três semanas até a conferência seguinte, e provavelmente por muito mais tempo, desde que os sérvios demonstraram consideravelmente mais habilidade e experiência em manipular as negociações em Rambouillet do que a dividida e pouco sofisticada delegação albanesa.
Washington havia jogado muito de suas esperanças no comissário político de 29 anos do ELK, Hashim Thaqi.
Albright colocou-o sob suas asas e tentou apresentá-lo como o "Gerry Adams de Kosovo" - uma referência ao político republicano que representou o Exército Republicano Irlandês (IRA) em bem-sucedidas negociações de paz no ano passado.
Assessores de Thaqi rejeitaram indignados a comparação. O ELK seria um exército nacional, não uma organização terrorista, segundo eles.
Mas quanto mais esforço Washington dispendia para ganhá-lo - mesmo levando o comandante supremo da Otan para a França apenas para informá-lo sobre propostos arranjos de segurança - mais teimosamente Thaqi recusou-se a assinar, temendo que iria trair os combatentes do ELK.
"Ele teve que crescer muito em pouco tempo, e ele poderia ter-se saído melhor", comentou uma autoridade ocidental.
Autoridades norte-americanas disseram que ambos os lados aceitaram 90% do acordo político de 82 páginas e os sérvios, enquanto continuavam a rejeitar uma força militar da Otan em terra, estão agora pelo menos preparados para discutir uma "presença internacional".
A delegação sérvia, que começou as conversações sob uma iminente ameaça de bombardeio da Otan, concedeu apenas o suficiente para escapar do ataque e foi aliviada da pressão, pelo menos por enquanto, pelas divisões entre os étnicos albaneses.
Albright afirmou que, sob pressão, Belgrado aceitou muitos dos elementos básicos da autonomia, da qual Milosevic privou de Kosovo em 1989 em um dos primeiros atos que levaram ao desmembramento da Iugoslávia.
No papel, a província sérvia pode esperar por eleições democráticas, garantidos os direitos humanos e da minoria, seus próprios tribunais, a retirada da polícia sérvia e a maior parte do exército iugoslavo, exceto numa estreita faixa fronteiriça, e uma revisão em três anos levando em contra a "vontade do povo".
Mas esta perspectiva é tão remota da situação atual em Kosovo que na falta de um acordo assinado e internacionalmente implementado, os albaneses étnicos têm bons motivos para serem céticos.
O ministro do Exterior francês, Hubert Vedrine, que co-presidiu a conferência de Rambouillet, refletiu a cautela quando perguntado numa entrevista se ele estava certo de que os dois lados aparecerão para a conferência de implementação.
"Não estou certo de nada. Isto são os Bálcãs", respondeu.


