Acordo comercial entre EUA e Cuba ainda está distante
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quarta-feira, 21 de julho de 1999
Por Dalia Acosta, da IPS (assinatura obrigatória) 
Havana (AE-AP) - O primeiro contato em 40 anos entre a Câmara de Comércio de Cuba e a dos Estados Unidos abriu o caminho para um diálogo sistemático, mas fracassou em sua tentativa inicial de alcançar um acordo. A assinatura do documento, que havia sido anunciada para a semana passada e considerada "irreal" por observadores em Cuba, foi suspensa até que surjam as condições propícias para os interesses de ambas as Câmaras. "Só o tempo dirá o que irá acontecer. Estamos numa estrada de resistência, e não de velocidade", afirmou em uma coletiva de imprensa em Havana o presidente da Câmara de Comércio dos Estados Unidos, Tom Donahue.
Ao término de uma visita de três dias, que incluiu um encontro de seis horas com o presidente Fidel Castro, Donahue afirmou que este é só "o começo de um diálogo" e que os contatos se sucederão em breve. O acordo havia sido anunciado por porta-vozes do governo cubano, mas em nenhum momento foi conhecido qual seria seu alcance ou seu conteúdo. O porta-voz do Departamento de Estado, James Foley, advertiu em Washington que a viagem de uma delegação da Câmara de Comércio não significava uma mudança da política norte-americana e não se deveriam criar "muitas expectativas". Analistas locais estimam que a diferença essencial é que a câmara cubana representa estritamente o setor estatal, enquanto a dos Estados Unidos representa cerca de três milhões de companhias privadas.
Por outro lado, o interesse declarado pelos norte-americanos de fortalecer os vínculos entre empresas privadas de ambos os países é interpretado por especialistas locais como um desconhecimento da realidade da ilha. Em Cuba, o setor privado se reduz a cerca de 160 mil trabalhadores autônomos, a pequenos agricultores e a formas de produção cooperativa que nos últimos anos chegaram a possuir 78% da terra cultivável. Mas o comércio exterior está regulado pelo Estado e é realizado só por empresas públicas ou de capital misto. Portanto, qualquer licença de intercâmbio comercial tem que partir de uma mudança radical de política em relação ao setor privado.
Apesar disso, Donahue assegurou que recebeu "dos altos níveis do governo de Cuba" a garantia de que será mantido o diálogo sobre as relações com o setor governamental, representado pela Câmara de Comércio cubana, e com o setor privado emergente. Ele esclareceu que o acordo entre ambas as partes será firmado quando estiver garantido que a relação possa ser realizada por estes dois caminhos. Donahue disse que entre os objetivos principais de sua viagem estava a definição do papel que poderia ser desempenhado pelo setor de negócios dos Estados Unidos para estimular o crescimento da empresa privada cubana e identificar oportunidades para futuros negócios. A delegação norte-americana se reuniu com altos funcionários, assim como com dissidentes, empresários, líderes religiosos e de organizações de caridade, e visitou um mercado agropecuário de livre concorrência e um restaurante privado. Em todos os casos, assegurou Donahue, seus interlocutores "consideraram o levantamento das sanções (econômicas dos Estados Unidos contra Cuba) como um meio de ir à essência do problema" e ver "que efeito catalizador poderia ter na situação política e econômica" da ilha. Ele adicionou que em sua condição de presidente da Câmara, se opõe às sanções econômicas unilaterais porque, apesar de existirem razões que as justificam, em geral não funcionam.
Esta é a primeira visita de uma delegação da Câmara do Comércio dos Estados Unidos ao país caribenho desde os anos 20 e está inserida na política do presidente Bill Clinton em favor do aumento dos contatos entre os dois países. Clinton anunciou em 5 de janeiro a ampliação dos vôos diretos à ilha, o aumento das remessas que aqueles que imigraram para os Estados Unidos mandam para seus familiares na ilha e o incremento dos intercâmbios culturais, científicos e esportivos. Os Estados Unidos também deram passos para liberar a venda de equipamentos e insumos médicos, remédios, alimentos e produtos para a agricultura, mas, em geral, passam por estritas regulações e estão limitados ao setor não estatal. Fontes da delegação norte-americana asseguraram que haviam proposto ao ministro da Saúde cubano, Carlos Dotres, a confecção de uma lista dos remédios necessários no país, especialmente para crianças e idosos. A iniciativa inclui o compromisso de colocar remédios em Cuba em um prazo de 24 horas, logo que a parte cubana tenha efetuado o pagamento correspondente, asseguraram os porta-vozes. A Câmara teria também solicitado um informe pormenorizado da situação nutricional na ilha, incluindo os déficits no consumo de proteínas e vitaminas.


