Washington, 06 (AE) Com a reativação do acordo entre o Brasil e o Fundo Monetário Internacional (FMI), esperada para segunda-feira, quando o diretor-gerente do Fundo, Michel Camdessus, deve recomendar à diretoria-executiva da instituição a aprovação de um novo desembolso de US$ 9,3 bilhões do crédito de US$ 41,5 bilhões concedido em dezembro, os credores e investidores passaram a interessar-se por duas informações sobre o programa de estabilização da economia sob o regime de câmbio livre.
"A primeira é se há receita adicional de privatização em relação ao programa negociado em novembro", disse Paulo Leme, o economista-chefe para a América Latina do banco de investimentos Goldman Sachs. Os US$ 28 bilhões de receita de privatização previstos no acordo original estavam destinados, em sua quase totalidade, a enterrar esqueletos do setor público; ou seja, pagar dívidas não regularizadas.
"A pergunta é se vai haver, por exemplo, venda de ações da Petrobrás", disse. "Não se trata necessariamente de coisas novas, mas se há ou não coisas que possam trazer mais receita."
De acordo com fontes oficiais brasileiras, o novo acordo com o FMI não inclui nenhum compromisso explícito de novas privatizações além das já previstas em 1999, como a venda de empresas do setor elétrico e do Banespa.
Mas a formação de uma comissão para estudar a consolidação ou venda das instituições financeiras federais (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia) e a troca de comando na Petrobrás estão sendo tomadas pelo mercado como um sinal da disposição do governo de iniciar o processo de venda dessas empresas durante os três anos do acordo com o FMI. Os investidores examinarão com lupa o novo memorando técnico do acordo, a ser divulgado ainda nesta semana, em busca de números que confirmem essa expectativa.
A segunda preocupação dos credores os envolve mais diretamente. "É muito importante saber qual é a estratégia de financiamento externo, em especial nos bancos comerciais, para obter a renovação ou a rolagem das linhas interbancárias", disse Leme. "Isso é muito importante, porque a deficiência do balanço de pagamentos causada pela falta de financiamento é o que tem contribuído para a volatilidade do câmbio", acrescentou. "Para se poder determinar a viabilidade das metas, é preciso saber qual a equação de financiamento externo."
Na quinta-feira, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga, vão visitar os principais centros financeiros para explicar aos investidores o que têm em mente e pedir seu apoio para que seja possível fechar o déficit externo sem sobressaltos. Em novembro, quando o ministro da Fazenda realizou uma missão semelhante, os credores responderam com o corte de linhas.
A demonstração da determinação e do rumo que o novo presidente do BC deu em seus dois primeiros dias no posto, confirmando que o objetivo central da política monetária será o controle dos preços, foi bem-recebida pelo mercado e produziu uma apreciação significativa do real, que pode marcar o início da reconquista da credibilidade.
Esta semana, além do anúncio do acordo do FMI, estão previstas a aprovação de novos US$ 3,4 bilhões em empréstimos de desembolso rápido do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a liberação de US$ 1,1 bilhão já concedido pelo Banco Mundial (Bird).
Também esta semana, o diretor do Bird para o Brasil, Gobind Nankani, deve confirmar a conclusão das negociações de mais um empréstimo de mais US$ 750 milhões a US$ 1 bilhão, com aprovação prevista para o início de abril. "É um crédito muito importante, pois apoiará a reforma administrativa dos Estados", disse Nankani à Agência Estado ontem, engrossando o coro oficial destinado a mudar o ânimo do mercado em relação ao País. Esses créditos do BID e do Bird são parte do pacote financeiro de US$ 41,5 bilhões coordenado pelo FMI.
A semana culminará com a reunião anual do BID, em Paris, onde Malan e Armínio vão ampliar a campanha pela volta da confiança dos credores, com o apoio do presidente da instituição, Enrique Iglesias, e de Camdessus, que é convidado especial do evento.
Não se deve, porém, esperar resultados imediatos. "Não acho que Malan e Armínio serão recebidos de forma negativa", previu Arturo Porzecanski, do banco de investimentos ING Barings, que apostou contra o sucesso do plano de estabilização sob o antigo regime cambial - e acertou - e hoje é um dos analistas mais otimistas em Wall Street sobre as perspectivas da economia brasileira. "Mas há um grande ceticismo", acrescentou.
"A atitude é ver para crer: os credores querem ver o apoio do FMI ao Brasil; ou seja, um novo desembolso, e querem ver também se o Brasil consegue cumprir um programa do FMI por mais de um mês".
As dúvidas sobre a convicção de setores importantes da coalizão governamental em relação aos méritos do programa econômico e a percepção de paralisia política no Planalto reforçam o ceticismo. "Os fluxos voltarão e os mercados de capitais se normalizarão no terceiro trimestre, se o Brasil fizer um excelente trabalho em março, abril e maio", disse Porzecanski.
No Tesouro americano, faz-se a mesma previsão: o capital externo começará a voltar em três meses, se o País honrar os compromissos fiscais assumidos com o FMI.
O desembolso da segunda parcela do crédito do Fundo, no valor de US$ 9,3 bilhões, virá no início de abril, após a aprovação da revisão do acordo de estabilização pelo board do FMI, que está programada em princípio para o dia 30. A espera deve-se à atitude de São Tomé, que o FMI e os governos do Grupo dos Sete, a começar pelos Estados Unidos, também adotaram em relação ao País.
Embora todos torçam pelo êxito do programa econômico, mesmo porque há interesses econômicos de milhares de empresas de seus países em jogo - além da credibilidade do Fundo e de algumas reputações pessoais -, desta vez não haverá cheque em branco e o Brasil terá de mostrar serviço à comunidade internacional antes de receber apoio financeiro.

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