Dois assuntos dominavam, no fim de semana, as conversas das 350 famílias do acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), na fazenda Santa Rosa, em Goiás: a vitória de cinco a zero da Seleção Brasileira sobre o time da Costa Rica e o acordo feito na sexta-feira com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o governo goiano. Depois de uma negociação que durou oito horas, os sem-terra decidiram deixar a fazenda e ficarão provisoriamente em uma área da Companhia de Eletricidade de Goiás (Celg) até que a Justiça decida se a fazenda é ou não produtiva.
Além de ter abortado um confronto que parecia iminente entre os sem-terra e a Polícia Militar, o acordo colocou em prática algumas das medidas do pacote da reforma agrária anunciado na quinta-feira passada pelo governo. O Incra começou a descentralizar suas ações ao repassar ao Estado a discussão sobre a fazenda Santa Rosa, que já foi ocupada quatro vezes pelo MST e quase foi palco de um novo massacre na semana passada. Além disso, o movimento, mesmo sem admitir, cumpriu o decreto presidencial, que proíbe vistoria em áreas invadidas.
‘‘Demos um exemplo para o Brasil’’, comemorou Erisson Pereira da Silva, líder das 1.500 pessoas acampadas na fazenda Santa Rosa. ‘‘Dá para fazer reforma agrária sem derramamento de sangue.’’ A alegria de Silva substituiu a tensão da sexta-feira, quando a PM chegou a fazer posição de tiro para enfrentar os sem-terra, que prometiam resistir à desocupação determinada pela Justiça. ‘‘Somos mais fracos, mas eles não iriam nos vencer com facilidade’’, afirmou o sem-terra Francisco Santana Filho.
Para o MST, o acordo foi uma vitória. ‘‘Garantimos não só uma área, mas também outros benefícios’’, afirmou Valmir Zanatta, um dos coordenadores nacionais do movimento. Além de ceder o local onde as famílias ficarão provisoriamente por 90 dias, o governo garantiu alimentação, assistência médica e ônibus para as crianças se deslocarem até a escola, que fica distante do novo acampamento. ‘‘Se a fazenda Santa Rosa for considerada produtiva, vamos arrumar outra terra para estas famílias’’, garantiu Durval Motta, presidente do Instituto de Desenvolvimento Agrário de Goiás.
A vitória foi comemorada de várias formas. Sem deixar de lado as foices, facões e as ‘‘bocas de jacar钒 (um pedaço de madeira cheio de pontas, feito para matar os cães da PM), os sem-terra se dividiam entre a barraca de lona da igreja Assembléia de Deus e a da dupla capiria Antônio do Violão e Manoel da Viola, que anima as noites do acampamento. As mulheres saíram despreocupadas para lavar roupa no pequeno riacho que cerca o local. A segurança foi relaxada, mas a entrada de estranhos no acampamento ontem ainda estava proibida.
A notícia do acordo chegou ao acampamento pela pequena televisão movida a bateria instalada do lado de fora da área onde estão as 350 famílias. O desfecho das negociações foi comemorado com uma festa que durou quase toda a noite de sexta-feira, embalada pela vitória da Seleção Brasileira na Copa América. Na manhã de sábado, não se falava em outra coisa, a não ser do acordo e de futebol. ‘‘O gol do Djalminha de falta foi um espetáculo’’, disse Francisco Santana Filho, que só parava de falar do craque quando alguém pedia explicação sobre as negociações, ou quando era provocado a contar uma de suas histórias de pescador. ‘‘Uma vez eu peguei um pacu de quase 40 metros’’, relatava Santana às gargalhadas.
Luiz Galiza, de 65 anos, um dos mais velhos do grupo, parecia menos tenso do que na sexta-feira, quando os PMs estavam preparados para cumprir a ordem judicial de retirar os sem-terra. Poucos, como Galiza, sabiam o que se passou fora do acampamento nos dias que antecederam o acordo. Para a maioria das famílias, a dimensão do fato só ficou nítida quando um dos líderes do MST mostrou, na tarde de sábado, um recorte de jornal com uma foto de vários policiais militares deitados na capoeira, fortemente armados e em posição de tiro. ‘‘Para que isso? Somos ordeiros, não queremos violência’’, disse Luiz, incrédulo.
As crianças voltaram a brincar tranquilamente com seus carrinhos quebrados ou com facas feitas de madeira, imitando os pais, que carregavam facões verdadeiros. ‘‘Infelizmente, nossos meninos já nascem com medo, prontos para lutar e com raiva da polícia’’, afirmou o sem-terra Vivaldi de Oliveira. O receio das crianças diante da presença policial ficou evidente na última assembléia do acampamento, na tarde de sábado. Um estrondo, fez com que todos eles corressem para junto de seus pais. O barulho, que parecia tiro, vinha dos fogos disparados por um acampado para comemorar o acordo inédito com o governo.

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