ACM garante mudar MP do mínimo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 29 de março de 2000
Por Rosa Costa 
Brasília, 30 (AE) - O presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), não está disposto a recuar da defesa de um maior reajuste do salário mínimo nem a mudar sua posição de independência em relação ao governo na discussão de temas populares. Durante jantar com amigos, na quarta-feira, o senador baiano disse dispor de instrumentos para mudar o destino da medida provisória que fixa o salário mínimo em R$ 151.
Sentado à mesa do Piantella, restaurante predileto de seu filho Luís Eduardo Magalhães (PFL-BA), ACM fez uma avaliação crítica do atual cenário político. Segundo relato de um dos convidados, o senador comentou que o presidente Fernando Henrique Cardoso tem sido favorecido pela ausência de uma oposição competente ao seu governo. "Essa oposição que ele tem é muito dispersa e amadora", analisou o senador. Para ele, a situação do presidente na discussão em torno do salário mínimo é tão delicada que lhe seria conveniente um rompimento. A seus interlocutores ACM frisou, entretanto, que não fez nem pretende fazer oposição ostensiva ao governo, porque se sente comprometido com o País. "Eu consigo sobreviver muito bem sem Fernando Henrique", afirmou, segundo informou um de seus amigos. "Fernando Henrique pode jogar tudo o que quiser contra mim na Bahia que o resultado será inverso e eu vou ter mais votos."
Apesar de não pensar em desembarcar da aliança governista, o senador reafirmou que não dará espaço para nova manobra do PSDB e do PMDB, que trabalham para adiar a votação da medida provisória do salário mínimo. "Eles vão tentar protelar, mas eu não deixarei", afirmou, questionando a necessidade de a comissão mista ouvir os ministros da Fazenda, Pedro Malan, do Trabalho, Francisco Dornelles, e da Previdência, Waldeck Ornélas
antes de votar a MP.
Após encontro com sindicalistas, hoje pela manhã, ele disse que dispõe de trunfos importantes para influir na votação da MP. Um deles, disse, é ter a seu lado a maioria dos senadores que compõem a comissão especial mista do Congresso encarregada de examinar a medida. "Essa é uma batalha obrigatória, que não se deve perder", defendeu.
Morte - O senador, com o apoio dos sindicalistas, foi duro com o PMDB. Durante a conversa, eles chegaram a concordar em que o presidente nacional e líder do partido no Senado, Jader Barbalho (PA), deveria viver dois meses com um salário mínimo de R$ 151. "Mas antes teriam de segurar os bens dele", sugeriu ACM. "A tese de Jader Barbalho é de quem não sabe o que é trabalhar para ganhar dinheiro." Para o senador baiano, a política econômica contrária a um valor maior para o salário mínimo vem sendo conduzida "de forma que pode quebrar isso ou aquilo, que pode matar o trabalhador". Ele disse hoje torcer para que Fernando Henrique venha a ser mais popular, mas frisou que isso não será possível se ele não aumentar o salário mínimo. "Não adianta fazer obras", alertou.
O presidente do Senado avaliou que a tese de adiar o reajuste de R$ 177 do mínimo para janeiro não é a ideal, mas, já que foi apresentada a Fernando Henrique pelo presidente de seu partido, senador Jorge Bornhausen (SC), cabe a ele aceitar. "A equipe econômica aprendeu a dizer uma só palavra: não", disse. "E é essa equipe econômica, com esse não, que está levando o presidente Fernando Henrique Cardoso a uma posição muito ruim nas pesquisas."
Rusga - Durante o jantar de quarta-feira, o senador voltou a queixar-se do que qualifica de intrigas para afastá-lo do governo e da "armação" que teria sido montada no Palácio do Planalto com o PMDB para esvaziar o discurso que fez na quarta-feira. Em sua opinião, o aparte de Jader , cobrando coerência do PFL na questão do mínimo foi combinado com o governo. "A intriga é muito grande", reclamou. "Mas se Fernando Henrique prefere o Jader, tudo bem, que fique com ele."
Discurso - O senador preparara um discurso com que pretendia resgatar sua autoridade política após o confronto com o governo e os outros partidos aliados. Usando a tribuna do Senado, ele voltou à ofensiva contra o Palácio do Planalto, com termos duros. "Os mais radicais proclamam até ser da nossa intenção desestabilizar o governo com a defesa de um salário mínimo que traga benefícios reais ao trabalhador", disse. "É inacreditável que um representante do governo vá a televisão para dizer que a oposição perdeu porque defendia um valor para o salário mínimo bem maior do que o definido pelo governo."
No contra-ataque, o presidente do Senado mandou novo recado ao Planalto, de que não pretende abrir mão de sua independência. "Quando o povo é o perdedor, é melhor a sua companhia do que a dos que ganharam diminuindo o já escasso pão dos pobres", atacou. "O povo conhece a cara de quem os derrota, e os que com ele perderam são os verdadeiros vencedores." O discurso de ACM tornou-se ainda mais duro após o aparte de Jader, que desafiou o ministro da Previdência, Waldeck Ornélas (afilhado político do senador baiano), a comprovar que seria possível um aumento maior.
"Eu não sou a figura mais importante do PFL", reagiu ACM. "E sei que o Ornélas não pensa de modo tão radical quanto o senhor disse." E disse que pouco se importava se o propósito de Jader era incompatibilizar o ministro com o Planalto. "Estou me preparando para brigas futuras." A guerra verbal entre os dois políticos continuou com uma crítica. "O senhor merece a minha solidariedade, mas enveredou pelo seu hábito de fazer intrigas."


