ACM acusa Barros de fazer 'guerra surda da política'
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de maio de 1999
Por Wilson Tosta 
Rio, 21 (AE) - O presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), acusou hoje o ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros (PSDB) de ser um dos promotores da "guerra surda política", que seria a causa de boatos sobre a suposta saída do ministro da Fazenda, Pedro Malan
do cargo.
O senador, que participou de um fórum na sede da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), afirmou que "ficou evidente" a participação, na disputa, do ex-ministro, integrante da corrente desenvolvimentista da base do governo. "Ele (Barros) não prestou nenhum bom serviço ao País", disse.
A guerra à qual ACM se referiu é o confronto entre os adeptos da prioridade para a estabilidade da economia, alinhados com o PFL e com Malan, e os defensores da retomada do desenvolvimento, ligados ao PSDB e que têm no ex-ministro o maior formulador. O senador baiano afastou a possibilidade de Malan deixar o cargo. "Acho que isso não é verdadeiro", afirmou. "O presidente Fernando Henrique reiterou total confiança no ministro Malan; os indicadores econômicos são todos favoráveis". Segundo ele, o confronto "não contribui, evidentemente, para o País".
O senador considerou "fútil" a discussão entre "estabilistas" e "desenvolvimentistas", que tem rachado o governo, mas tomou partido dos pefelistas no debate. "Como se uma coisa não dependesse da outra", disse ele, referindo-se ao dilema estabilidade versus desenvolvimento. Segundo ACM, "ninguém é contra o desenvolvimento; agora, ninguém quer que o Brasil volte à situação anterior". O presidente do Senado afirmou que o País não está vivendo "um mar de rosas" e criticou a "disposição para achar que os indicadores estão melhorando e se deve gastar tudo".
"Falo até com mais autoridade do que eles (os desenvolvimentistas) porque já vivi mais tempo e já passei pelo desenvolvimento do presidente Kubitschek", disse. "Também já passei pelo problema inflacionário, que levou o País a uma situação cujas consequências sofre até hoje; não podemos repetir erros do passado." ACM recordou a crise de janeiro, dizendo que nenhum país pode andar certo se tem no Banco Central (BC) "alguém que não se dá com o ministro da Fazenda", o que ocorria quando o economista Francisco Lopes presidia a instituição. "Isso não pode funcionar nunca; então, dá no que deu, nesse prejuízo terrível que teve em janeiro por causa dessa brincadeira de querer mudar Malan na hora errada."
O senador também atacou a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e o presidente da entidade, Horácio Lafer Piva, que defendeu mudanças no Ministério da Fazenda. "Acho que a Fiesp pensa naquilo que interessa a seu presidente e talvez a alguns diretores, sem pensar no que interessa mais ao Brasil", disse.
"Evidentemente, é uma política errada, que não acontece no Rio", afirmou ele, em elogio à Firjan. ACM disse ainda que "também os paulistas não apóiam essa atitude da Fiesp", que atribuiu a interesses pessoais ou de empresas mais ligadas a dirigentes da Fiesp do que ao povo ou à indústria paulistas.
"O governo é do Brasil, não pode ser de São Paulo", afirmou. "Os paulistas compreendem isso e sabem que a melhor maneira de crescer é não querer monopolizar as ações econômicas." Para ele, "falta senso na Fiesp (que tem criticado a política econômica do governo) e não falta na Firjan (que a tem sustentado incondicionalmente)".
O presidente do Senado defendeu uma reforma para aprimorar o setor de fiscalização do BC, que, na opinião dele, tem falhado seguidamente. "Tem Marka, (Fonte)Cindam, houve os problemas do Econômico, do Nacional, do Bamerindus; tudo isso ocorreu com várias falhas que não foram detectadas antes", criticou. "Evidentemente, se houvesse uma boa fiscalização, não teria acontecido e o País teria sofrido menos."
Durante o Fórum da Gestão Pública Eficiente, promovido pela Firjan, o senador anunciou que vai propor a criação no Senado de uma comissão permanente de fiscalização da Justiça, pois a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), apesar de ter atingido os objetivos, não terá tempo para investigar tudo.
"O Senado receberá as denúncias e as mandará para uma subcomissão da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, e, aí, nós mandaremos para um conselho da magistratura, a ser criado, ou para os próprios tribunais onde ocorrerem as falhas para que tomem as providências", explicou, antecipando como será o funcionamento do novo órgão. "Não vamos interferir na Justiça, vamos forçá-la a agir em benefício da população." O parlamentar foi aplaudido pela platéia, formada por políticos e empresários, ao propor mudanças na Justiça, principalmente na trabalhista.
"O Tribunal Superior do Trabalho (TST) diz que tem 2,5 milhões de processos, trabalha intensamente e, cada ano, vota cem mil", afirmou. "Mas, assim, vamos ter 5 milhões para o ano; temos de ver uma maneira de resolver isso embaixo (nas instâncias mais baixas) para que esses processos não cheguem lá e não haja esse número tão grande." O senador emocionou-se e chorou quando, durante discurso, o presidente da Firjan, Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, homenageou o filho dele, o ex-líder do governo na Câmara Luís Eduardo Magalhães, que morreu em 1998.
Depois de ter a candidatura à Presidência da República informalmente lançada por Vieira, o senador não descartou a possibilidade de aceitar a aceitar, mas afirmou que ainda é cedo para uma decisão desse tipo. "Vamos cuidar da eleição para prefeitos (em 2000), depois, vamos cuidar desse assunto", afirmou. "Eu, evidentemente, não vou dizer que não gostaria de ser; gostaria, mas sou muito realista, pragmático, só vou na hora própria, se isso for conveniente", disse ele. "É muito longe para qualquer um, até porque quem vai assim para o sereno tão cedo não chega lá."


