Estudo da CNT mostra um atraso de 35 anos no atual índice de mortos por acidente de trânsito no Brasil na comparação com países desenvolvidos
Estudo da CNT mostra um atraso de 35 anos no atual índice de mortos por acidente de trânsito no Brasil na comparação com países desenvolvidos | Foto: Anderson Coelho



A cada dia, uma média de 411,3 acidentes são registrados nas rodovias federais do País, resultando em mais de 20 mortes. Entre 2007 e 2017, foram contabilizados 1,65 milhão de acidentes e 83.481 óbitos nas estradas fiscalizadas pela PRF (Polícia Rodoviária Federal). Os números fazem parte do estudo "Transporte rodoviário: acidentes rodoviários e infraestrutura", realizado pela CNT (Confederação Nacional dos Transportes) a partir de dados fornecidos pela PRF.

Divulgado nesta segunda-feira (4), o levantamento pretende apontar os fatores que contribuem para a ocorrência de acidentes de trânsito, caracterizar os acidentes com vítimas registrados nas rodovias federais e mapear os trechos mais perigosos, associando-os às características da infraestrutura das estradas.

Embora o número de acidentes tenha baixado 30,3% de 2007 para 2017, passando de 128.440 para 89.396, as ocorrências ficaram mais violentas. A taxa de óbito no período, utilizada para avaliar a gravidade dos acidentes, subiu de 5,5 para 7 a cada 100 acidentes. A CNT ressalta, no entanto, que a partir de 2013 as ocorrências sem vítimas começaram a ser registradas pelos próprios usuários, o que pode ter gerado um número abaixo da realidade.

Do total de 141 rodovias federais pavimentadas, 27 concentram 83,1% dos acidentes e 80% dos óbitos. Somados, Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná registraram 38,2% dos acidentes com vítimas. Em relação ao número de mortes em acidentes de trânsito, Minas Gerais, Paraná e Bahia contabilizaram 32,2% dos óbitos.

RANKING
No levantamento, a CNT avaliou 4.571 trechos de até dez quilômetros e, de acordo com o maior número de mortes em acidentes registrados em 2017, elaborou uma lista com os cem mais perigosos do País que, no total, somaram 5.254 acidentes e 766 óbitos. Na primeira colocação, está um trecho da BR-101 no município de Guarapari (ES), com 21 mortes. A BR-101 também ocupa o segundo lugar, em Abreu e Lima (PE), com 15 óbitos.

No ranking, há seis trechos de rodovias federais que cortam o Paraná. O mais perigoso do Estado, na 15ª posição, fica na BR-277, em Foz do Iguaçu (Oeste), onde nove pessoas morreram. Outro trecho na mesma rodovia, mas no município de Céu Azul (Oeste), ocupa o 18º lugar, também com nove mortes. A BR-116, em Fazenda Rio Grande (Região Metropolitana de Curitiba), e a BR-476, em Curitiba, tiveram cada uma oito mortes e ficaram na 27ª e 28ª colocações, respectivamente. Ainda aparecem na lista a BR-158, em Campo Mourão (Centro-Oeste), com sete mortes (36º lugar), e a BR-376, em Sarandi (Região Metropolitana de Maringá), onde foram computados seis óbitos (65º lugar).

Os dados apresentados pelo estudo, afirma a CNT, apontam ainda um atraso de 35 anos no atual índice de mortos por acidente de trânsito terrestre no Brasil na comparação com países desenvolvidos. O Brasil tem hoje aproximadamente 19 mortos por 100 mil habitantes, índice equivalente ao observado em países desenvolvidos no ano de 1982.

VARIÁVEIS
A CNT conclui que as deficiências na infraestrutura viária disponível contribuem para a ocorrência de acidentes porque afetam diretamente o comportamento e a tomada de decisões dos motoristas. Quando a qualidade do pavimento é avaliada como regular, ruim ou péssima, a gravidade dos acidentes nos cem trechos mais perigosos é 39,2% maior ante os demais trechos rodoviários. Quando a variável analisada é a sinalização, a gravidade é 77,1% maior nessa comparação. Em relação à geometria da via, os acidentes são 59,8% mais graves nos trechos mais perigosos em locais com avaliação negativa.

"Os dados revelam que a probabilidade de ocorrência de morte em uma rodovia é muito maior quando ela recebe classificação negativa pela Pesquisa CNT de Rodovias nas variáveis sinalização, pavimento e geometria da via", avaliou o diretor-executivo da confederação, Bruno Batista, em material divulgado pela assessoria de imprensa da entidade. "Somente por meio de infraestrutura de qualidade, os índices de mortes nas rodovias serão reduzidos", completou ele.

Trechos com pavimentos avaliados como ótimos ou bons, no entanto, concentram acidentes mais graves. Nos locais onde o pavimento é ótimo, o índice é de 11,2 mortes a cada 100 acidentes. Em rodovias com pavimento péssimo, o índice cai para 7,7 óbitos. De acordo com a CNT, a diferença pode ser explicada pela facilidade de se desenvolver maior velocidade nos trechos em melhores condições, mas a entidade ressalta que a fiscalização mais ampla e regular, quando associada à boa condição de rodagem, pode contribuir para a queda das mortes.

MAU COMPORTAMENTO
A PRF informou que a qualidade média da infraestrutura das rodovias brasileiras tem melhorado ao longo das últimas décadas, tanto em termos de pavimento quanto de sinalização. "É inegável que um pavimento irregular e uma sinalização deficiente são fatores que podem contribuir para a ocorrência de acidentes graves, mas as principais causas de acidentes graves estão relacionadas a comportamentos inadequados de usuários das rodovias, como excesso de velocidade, execução de manobras proibidas, desatenção, embriaguez, sono etc.", avaliou o chefe do Núcleo de Comunicação da PRF, Fernando Oliveira.

A corporação observou que sempre recomenda aos órgãos responsáveis melhorias nas condições de infraestrutura das rodovias federais, como a construção de novas passarelas, a instalação de mais equipamentos controladores de velocidade, obras de duplicação, entre outras medidas.

Sobre as rodovias paranaenses listadas no ranking dos cem trechos mais perigosos elaborado pela CNT, a PRF informou que uma análise preliminar indica serem trechos em perímetro urbano ou de pista simples, onde em 2017 houve acidentes graves com múltiplas vítimas, como colisões frontais, por exemplo. "Em alguns casos, uma única ocorrência com várias vítimas pode impactar diretamente esse tipo de levantamento estatístico", observou Oliveira.

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