Salvador, 27 (AE) - Uma das obras mais criativas e representativas do barroco brasileiro do século 18 só poderá ser apreciada, a partir de agora, por quem visitar Salvador. Depois de um acidente que resultou no deslocamento do braço direito, quando foi transportada para participar da Bienal de São Paulo, em 1998, a escultura de madeira Cristo Atado à Coluna, de Francisco das Chagas, o Cabra, não será mais emprestada para exposições, onde quer que ocorram.
A decisão foi tomada pelo prior do Convento do Carmo de Salvador, frei Jadival Oliveira, para preservar a escultura. Por conta disso, foi recusado o empréstimo da peça para duas importantes exposições, a do barroco brasileiro, em Paris, em 1999, e a Mostra do Redescobrimento, itinerante, alusiva aos 500 anos do Brasil, que será inaugurada em abril. "É uma escultura raríssima, seria temeroso deixá-la sair do Carmo novamente", afirmou. A obra passa por restauração minuciosa. A título de seguro, para a transferência, a peça foi avaliada, na época, em US$ 700 mil (cerca de R$ 1,2 milhão). A expressão de sofrimento, os impressionantes detalhes anatômicos e as chagas, de onde escorrem gotas de sangue, representadas por pedras de rubi, fizeram da obra a maior estrela do Museu do Convento do Carmo.
Conhecida internacionalmente, a peça de 1,51 de altura, sempre despertou a atenção de pesquisadores belgas e franceses. Com o movimento sugerido pelo corpo em torção acentuada, a figura é exemplo do estilo barroco no estado mais puro. O curador-geral da 24.ª Bienal Internacional de São Paulo, Paulo Herkenhoff, comparou o Cristo de Cabra, pela estética e atemporalidade, às obras de Rodin e Goya.
A assessora administrativa do Museu do Carmo de Salvador
Gracia del Rosário, isentou totalmente de culpa a organização da Bienal de São Paulo pelo deslocamento do ombro direito do Cristo Atado à Coluna. Segundo ela, que participou do processo de embalagem e transporte, a operação foi realizada levando-se em conta padrões internacionais para o manuseio de obras de arte. O causador do acidente foi um motivo mais prosaico e nocivo às obras de arte: cupins.
A responsabilidade pela restauração da peça está nas mãos do artista plástico e restaurador baiano Sérgio Cavalcanti, que começou o trabalho em janeiro e espera concluí-lo em três meses. Ele montou um ateliê numa das salas do convento, e dedica
diariamente, quatro horas para o trabalho de restauração. A cada etapa, uma equipe de técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan) inspeciona o trabalho. O Iphan considera a escultura tão importante que só escolheu o restaurador depois de cinco meses de pesquisas.
Vários, de todo o País, foram sondados, mas Cavalcanti foi escolhido pela larga experiência, de 22 anos, na restauração de igrejas e peças baianas. Mesmo para um técnico tão tarimbado, trabalhar numa escultura de Cabra ainda emociona. "O trabalho permite-me sempre descobrir novos detalhes impressionantes na obra."
Embora deva estar restaurada ainda neste semestre, baianos e turistas só vão poder apreciar a obra em 2001, quando o Museu do Carmo reabrir. O espaço foi fechado em 1998, quando o Iphan e o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) anunciaram que pretendiam fazer uma ampla reforma no Convento e Igrejas das Ordens Primeira e Terceira do Carmo.
"Desmontamos o museu para a reforma, que até hoje não foi efetivada", lamenta frei Jadival, que decidiu reabrir o museu em 2001, só depois de restaurar todas as peças e realizar nova catalogação do acervo.

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