Só a natureza é capaz de nos fazer enxergar, ao menos por alguns instantes, um ''mundo cor-de-rosa'' em tempos de corrupção, miséria, violência. Este ano, ela não poupou seus pincéis na Associação Cultural e Esportiva de Apucarana (Acea), onde 70 cerejeiras carregadas de flores aguardam visitantes locais e de outros estados.
O espetáculo estreou um pouco adiantado, já que a florada costuma acontecer no final do mês. Segundo o presidente da Acea, Satio Kayukawa, a breve onda de frio registrada no começo de maio, seguida do calor fora de época, fez as flores eclodirem de uma vez. É uma recompensa para quem teve de se contentar com uma florada pobre no ano passado. ''É também sinal de que haverá boas colheitas no campo'', prevê.
No Japão, o fenômeno marca o fim de invernos rigorosos e, consequentemente, do sofrimento. Daí a tradição de celebrar bebendo saquê ou cerveja debaixo das cerejeiras, no chamado hanami. Embora no Brasil a florada dessas árvores anuncie justamente a chegada do inverno, a comunidade nipônica manteve o costume no Paraná. Assim, o encanto de uma cerejeira florida não se resume à sua beleza, mas está também em sua carga simbólica.
''Os pioneiros que plantaram as árvores em Apucarana queriam deixar algo que fizesse as próximas gerações se lembrarem deles eternamente. E as cerejeiras costumam viver mais de um século'', explica Kayukawa. Foi o pioneiro Hatsuichi Kinoshita, que hoje dá nome ao Parque das Cerejeiras construído dentro da Acea, quem foi buscar as primeiras mudas em Campos do Jordão, na serra paulista. ''Muitos não acreditavam que elas pudessem florescer em Apucarana, mas deu certo e hoje vem gente de vários estados para vê-las'', sublinha o secretário da associação, Jorge Nishikawa.
A tradição ganhou tanta força no município que foi acrescida de uma dança que não havia no Japão, o sakura matsuri. Vestidas com kimonos rosados, as mulheres da comunidade saúdam a florada desenhando símbolos no ar com buquês artificiais de flor de cerejeira. ''Dois desses símbolos são o triângulo, representando a bandeira do Brasil, e o círculo, da bandeira japonesa'', traduz a pioneira Massaco Suzuki, 72 anos.
A dança poderá ser assistida na 12 Festa da Cerejeira, que começa no dia 28 de junho. Já o hanami local será realizado neste domingo (18), na Acea. Qualquer um poderá fazer seu próprio piquenique no parque da associação. A entidade também mantém os portões abertos todos os dias para quem quiser apreciar as cerejeiras. O endereço é Avenida Jabuti, 101, fone 3422-0371.

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