Brasília, 19 (AE) - Na ação cautelar que o Ministério Público impetrou hoje (19) na Justiça Federal, dois ex-diretores do Instituto Nacional de Desenvolvimento do Desporto (Indesp) acusam o atual diretor de Administração e Finanças do órgão, Luiz Antônio Buffara de Freitas, de ter criado um "balcão de atendimento a clientes especiais" para autorizar bingos. A ação
formulada pelos procuradores da República no Distrito Federal Luiz Francisco de Souza e Guilherme Schelb pede o afastamento de Buffara do governo, o fechamento de seis bingos no DF e a punição de empresários supostamente ligados à máfia italiana.
Hoje, a Câmara e o Senado decidiram convocar servidores do Indesp para explicar as acusações de irregularidades. O presidente Fernando Henrique Cardoso agendou para amanhã de manhã um encontro com o ministro do Esporte e Turismo, Rafael Greca, para tratar do assunto.
Greca disse já ter pedido à Polícia Federal que investigue irregularidades no Indesp, onde há uma sindicância e uma auditoria em ação. O ministro quer transferir para a Caixa Econômica Federal a administração de bingos no País.
A ação acusa o Indesp de atender a "interesses escusos" ao ter baixado duas portarias - uma delas no ano passado - regulamentando a modalidade de bingo eletrônico, considerada ilegal pelos procuradores. Segundo eles, as portarias contrariam a Lei Pelé e sofreram a influência de integrantes da máfia italiana para abrir o País às máquinas de bingo.
O ex-Coordenador-Geral de Credenciamentos do Indesp João Elias Cardoso disse em seu depoimento que Buffara determinou que os "atendimentos prioritários" no órgão seriam feitos pelo assessor Davi Alexandre Monteiro. A ex-Chefe de Divisão e Análise e Concessão do Indesp Dyleny Silva disse que foi informada pelo próprio Buffara de que havia "um balcão de atendimento a clientes especiais" que ficaria "sob responsabilidade" de Alexandre Monteiro.
Dyleny afirmou ter dito a Buffara que estava descontente no serviço, pois não aceitava o critério de só atender quem pertencia "à base do governo". Segundo Dyleny, Buffara alegou que "em toda a Esplanada dos Ministérios era assim que se procedia", de modo que ela teria de atender à "bancada".
Na ação cautelar, o Ministério Público, além de pedir o afastamento de Buffara, solicita à Justiça Federal a interdição da empresa de Manoel Ventura Durso (dono de bingos em Brasília) e requer a punição, por improbidade, de Alejandro Ortiz de Viveiros e seu filho Alejandro Ortiz Fernandes, além do advogado Tiago Loureiro. Segundo a Divisão Distrital Antimáfia da Itália, Viveiros é o testa-de-ferro de um chefão da máfia italiana no Brasil.
Os membros da família Ortiz são acusados de lesar a economia popular, enriquecendo ilicitamente ao manter máquinas de bingo eletrônico. O Ministério Público incluiu ainda na ação a lista de pessoas ligadas a bingos que teriam participado de reuniões na Companhia Nacional do Abastecimento (Conab) para a elaboração da portaria do governo sobre bingos.
O Congresso decidiu esclarecer as denúncias de envolvimento da máfia italiana com o Indesp. O senador Osmar Dias (PSDB-PR), presidente da Comissão de Assuntos Sociais, decidiu convocar todos os assessores de Greca para responder às acusações.
Dias, que é da base aliada do governo, cobrou providências até de Fernando Henrique. "O presidente não tem o direito de deixar o assunto ficar escondido embaixo do tapete", afirmou o senador. "Ele (FHC) não pode deixar que pensem que está conivente com o que está acontecendo." Dias disse estar "perplexo" com a falta de atitude do ministro Greca frente às denúncias.
Na Câmara, os deputados Gilmar Machado (PT-MG) e Doutor Rosinha (PT-PR) decidiram convocar o ex-presidente do Indesp Manoel Tubino para depor na Comissão de Educação, Cultura e Desporto. Em sua carta de demissão, Tubino afirmou que Greca "estrategicamente" desviava o assunto quando era questionado sobre os procedimentos de Buffara.

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