Bastou um ensaio do enchimento do lago da Hidrelétrica de Porto Primavera - interrompido por uma ação popular do governador eleito do Mato Grosso do Sul - para criar uma situação de acusação mútua entre a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) e parte da população da região.
A TV Fronteira, de Presidente Prudente, mostrou, na manhã de ontem, peixes ilhados a jusante da represa pelo rebaixamento do nível das águas. O responsável pelo Departamento de Comunicação Social da Cesp, Osterno Antonio de Souza, no entanto, assegura que tudo estava previsto e que isto não passa de pressão de pescadores profissionais.
Argumenta que os pescadores estão agindo ilegalmente, já que a captura de peixe a essa época está proibida pela piracema (a subida de cardumes para desova no Alto Paraná). Mas justifica que a queda abrupta no nível das águas a jusante da represa, que avalia entre 1m70 a 1m80, não afeta o deslocamento dos cardumes. Peixes nobres do Paraná, como o dourado, podem deslocar-se a distâncias acima de 250 quilômetros para fazer a desova e, assim, garantir a reprodução.
A Cesp também não aceita a queixa da população moradora das ilhas fluviais que serão inundadas, caso das ilhas Da Japonesa e do Veado, em Presidente Epitácio. Os moradores estão com seus pertences arrumados e muitos desmancham suas próprias casas, esperando pela mudança. Na tarde da quinta-feira, vários moradores dessas ilhas disseram que a empresa não está cumprindo a data de suas mudanças para a margem paulista do rio. Esses moradores, caso de dª Angelita Borges dos Santos Dias, queixam-se que a Cesp recomendou, há um ano, que ela e o marido suspendessem as lavouras de subsistência que fazem, milho e feijão, entre outros. ‘‘Como é que vamos viver, se paramos de plantar?’, pergunta ela.
Há, ainda, casos de desencontros na documentação de outros moradores. É o caso de Gildásio Soares da Silva, conhecido como ‘‘João Louco’’ que, segundo a Cesp, não tem direito a uma moradia ou gleba fora da área em que vive hoje e que, com o enchimento do lago, será o leito de navegação sob a ponte que une os Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Agitado, ele esperava para ontem, a chegada de policiais que devem retirá-lo, à força, segundo uma intimação que já lhe foi entregue por oficiais de Justiça. Ele diz que não tem onde alojar seus animais (vacas, porcos, galinhas e cavalos).
A Cesp entrou com novo recurso para garantir o início do enchimento do lago de Porto Primavera, mas o prazo depende de decisão da Justiça do Mato Grosso do Sul.

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