Ação germicida do sol tem baixo poder para impedir transmissão de coronavírus, aponta estudo


EVERTON LOPES BATISTA
EVERTON LOPES BATISTA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um grupo de pesquisadores que usou dados de mais de 200 cidades chinesas durante a pandemia não encontrou efeito da temperatura ou da radiação solar na eliminação do novo coronavírus ou na diminuição do contágio.

A descoberta contraria artigos publicados nos últimos meses que apresentaram essa possibilidade com base em cálculos teóricos e experiemtnos em laboratório.



A ação germicida do sol existe porque a estrela emite radiação ultravioleta. Existem alguns tipos desses raios, divididos pelo comprimento de onda com que viajam pelo ambiente. O ultravioleta do tipo C (UVC) é o mais potente e pode eliminar mais de 90% do novo coronavírus alojado em superfícies em poucos segundos, de acordo com experimentos realizados em diversos laboratórios com lâmpadas especiais.

A radiação ultravioleta age no material genético do vírus, causando um dano que impede a multiplicação do microrganismo, fazendo com que ele não seja capaz de iniciar uma infecção.

Mas o UVC emitido pelo sol fica retido na atmosfera, antes de atingir o solo. E ainda bem: esse tipo de radiação é prejudicial para pessoas, animais e plantas que recebem os raios diretamente por um período mais prolongado, podendo causar de queimaduras a câncer.

Aparelhos que usam o UVC artificial emitido por lâmpadas especiais para desinfecção de ambientes já são vendidos no Brasil e usados em diferentes partes do mundo para a eliminação de microrganismos no transporte público e em ambientes fechados.

Vindos do sol, chegam até a superfície do planeta os raios ultravioleta do tipo A e B (UVA e UVB). O UVB, que chega em menor quantidade ao solo, tem alguma ação germicida, ainda que com potência milhares de vezes inferior à dos raios UVC.

Cientistas dos Estados Unidos realizaram uma simulação em laboratório com lâmpadas que imitam a luz do sol no nível do mar em um dia claro. Os pesquisadores lançaram a radiação sobre uma substância semelhante a uma saliva contendo o Sars-Cov-2 e sobre uma cultura de células contendo o vírus.

De acordo com os resultados do experimento, 90% dos vírus foram inativados em cerca de 7 minutos na saliva falsa e em aproximadamente 14 minutos na cultura de células. O estudo foi publicado em maio na revista científica The Journal of Infectious Diseases, ligado à sociedade americana de doenças infecciosas (IDSA).

Esses resultados foram obtidos em condições ideais, não levando em consideração a presença de nuvens ou bloqueios causados pela poluição, presentes em situações reais.

Um outro artigo publicado no início deste mês por pesquisadores dos Estados Unidos no periódico Photochemistry and Photobiology usou cálculos teóricos para estimar a desativação do novo coronavírus pela luz do sol em diferentes localizações do planeta. Em média, mais de 90% do vírus estaria inativada em até 34 minutos para a maioria das cidades recebendo luz do sol de meio-dia no verão.

Segundo a estimativa dos pesquisadores, a desativação do vírus em São Paulo num dia de inverno levaria cerca de 41 minutos, para um sol de meio-dia.

Os autores do texto, dois pesquisadores aposentados, não fizeram nenhum experimento com o Sars-Cov-2 e usaram um modelo desenvolvido por eles mesmos há mais de dez anos para calcular a inativação de diferentes vírus pela luz do sol. O modelo para os cálculos usa dados da sensibilidade à radiação ultravioleta apresentada por diversos vírus.

No texto, que usa uma página da Wikipédia como uma de suas referências, algo incomum em artigos científicos, os autores argumentam que o distanciamento social e a quarentena imposta por governos para minimizar a transmissão do novo coronavírus podem ter causado mal à população por impedir maior exposição ao sol.

Os cientistas não responderam às perguntas enviadas pela reportagem pedindo detalhamento do estudo, mas Jose-Luis Sagripanti, um dos autores, enviou um artigo de opinião assinado no qual questiona os efeitos da quarentena imposta pelos governos.

Pesquisadores brasileiros da área que analisaram o artigo encontraram um forte viés no estudo.

Para Tania Mateus Yoshimura, pós-doutoranda do Ipen (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares) na área de aplicação da luz para a saúde, é problemático levar esse resultado ao pé da letra.

"É uma estimativa. Para sabermos de fato se o vírus tem aquela sensibilidade à luz precisamos de experimentos. Ainda não existem dados conclusivos sobre o efeito do UVC, muito menos para o uso do UVB", afirma a pesquisadora.

As partículas virais estão no ar geralmente envoltas em matéria orgânica, como saliva ou secreção nasal, por exemplo, que atuariam para proteger o vírus de receber a radiação diretamente sobre o material genético, lembra Yoshimura. "O estudo foi feito com a suposição de uma ação direta no material genético", acrescenta.

"Ainda que a inativação pelo sol seja possível, não adianta muito estar do lado de fora e alguém tossir ou espirrar por perto; o vírus não vai ficar esperando meia hora no ar até ser inativado", afirma a cientista.

Além disso, ela lembra que as pessoas que andam pelas ruas não ficam debaixo do sol o tempo todo. "Elas vão pegar transporte público, entrar em ambientes fechados. Nesses casos, a ação germicida do sol não faz diferença", diz.

Para Caetano Padial Sabino, doutorando na USP e pesquisador das aplicações da luz para a saúde, a afirmação que circula nas redes sociais de que o risco de infecção pelo novo coronavírus é menor em dias ensolarados é perigosa e pode causar riscos à saúde.

"O Brasil tem uma taxa de incidência solar que está entre as maiores do mundo, e mesmo assim somos o epicentro da pandemia", afirma o cientista, que também é fundador de uma empresa que produz equipamentos de ultravioleta para desinfecção de ambientes.

Pesquisadores de universidades chinesas cruzaram dados de disseminação do Sars-Cov-2, temperatura e radiação solar de mais de 200 cidades da China. Os resultados, publicados em abril na revista científica European Respiratory Journal, indicam que radiação solar e temperatura não influenciaram nas taxas de contágio.

"Nosso estudo não dá suporte à hipótese de que altas temperaturas e índices de radiação ultravioleta podem reduzir a transmissão da Covid-19. É prematuro contar com o clima mais quente para controlar a doença", escrevem os autores no artigo.

Ainda que os banhos de sol possam estimular a produção da vitamina D, que tem um potencial benéfico para o sistema imunológico, os cientistas descartam uma suposta função terapêutica do sol para casos de Covid-19, uma vez que a radiação atua apenas na superfície sobre a qual incide e os vírus se multiplicam dentro das células, no interior do corpo.



"A luz do sol traz vários benefícios, incluindo a descontaminação. Mas para concluir que pode diminuir o contágio pelo vírus é necessário analisar outras variáveis", conclui Yoshimura, do Inpe.

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