Paris, 03 (AE) - As cabeças que governam a Otan em Bruxelas superaram o torpor: mal transcorridas 48 horas da primeira queda de bombas sobre a Sérvia, essas cabeças se conscientizaram de ter desencadeado um desastre. Agora podemos perguntar, um tanto angustiados, se, paralelamente a esse desastre, não se desenvolverão outros. Por exemplo, um desastre histórico-geográfico, com a divisão de fato de Kosovo. Ou, ainda, um desastre geopolítico, com a perda da autoridade da Otan (e dos EUA), em amplas regiões do mundo. Ou, igualmente, um desastre balcânico (não apenas sérvio e kosovar), com eventuais metástases nas regiões vizinhas.
Entre todos esses desastres, o mais patético é o primeiro, essa fuga frenética de centenas de milhares de kosovares que cavam seu caminho rumo a Albânia, Montenegro e Macedônia. As aldeias destruídas pelos "bárbaros". Os homens executados. Mulheres encerradas nos trens. Um mecanismo gigante destinado a livrar Kosovo de tudo o que tem de não-sérvio, ou seja, albanês.
Circunstância agravante: hoje sabemos que o líder sérvio, Slobodan Milosevic, planejou cuidadosamente a caça aos kosovares, programando seu exílio. Numa espécie de pogrom (tal como o dos judeus na Rússia czarista), porém, em dimensões de um povo inteiro. Aliás, os militares americanos advertiram Bill Clinton antes mesmo do desencadear da guerra. E, na França, os especialistas sabiam que essa depuração foi preparada por Milosevic e seus cúmplices enquanto sérvios e kosovares pareciam discutir um plano de paz em Rambouillet.
Trata-se, pois, de depuração, uma prática habitual de Milosevic, verificada na Bósnia. Mas, desde os tempos da Bósnia, o líder sérvio progrediu: alí a questão foi tratada como num matadouro, num banho de sangue. Em Kosovo, tornou-se mais civilizada.
Convém não nos deixarmos iludir: os soldados sérvios também assassinaram em Kosovo, porém, de modo menos sistemático do que na Bósnia. As pessoas estão sendo expulsas de seus lares. O que ainda não é tudo. Suas fazendas são queimadas, seus campos saqueados. Imóveis são demolidos. E, como se isso não bastasse, os malvados sérvios queimam arquivos do registro civil, queimam certidões de nascimento, abolem genealogias e títulos de propriedade. Lembram-nos autos-de-fé da Inquisição, a vontade de abolir alguma coisa, um povo, uma religião que existia na terra. Trata-se de extinguir uma memória.
Esse, pois, o lado mais espetacular do desastre que engloba ainda outros, correlatos. A expulsão de todos os albaneses tem como meta esvaziar todas as regiões de Kosovo. Em outros termos: expulsando todos os albaneses (90% de Kosovo), Milosevic parte em duas a geografia, operando "a quente". Graças aos aviões da Otan, pode finalmente concretizar a divisão do território, o que sempre foi seu maior desejo.
Especialistas ocidentais sérios aproveitam a ocasião para afirmar que essa divisão de fato não chega a ser má. Disseminados os kosovares, sem perspectivas de retorno, a calma voltará à região. Um analista notável como Alexandre Adler preconiza, no Courrier International, não apenas essa solução: ele chega ao ponto de traçar antecipadamente as fronteiras dos dois futuros Kosovos.
Mais uma vez verificamos agora que o passado, a história, apesar de às vezes cochilar durante alguns anos ou até mesmo séculos, só dorme com um dos olhos fechados, terminando por acordar. No caso presente, trata-se do óbvio: o que agora acontece corresponde a acontecimentos passados há seis séculos. Recordemos: no fim da Idade Média, o reino sérvio dos Nemânidas chegou ao apogeu sob o pulso de Estevão IX Dusan, que reinou sobre um grande império cristão (belos mosteiros), cujo centro era justamente Kosovo. Porém, depois da morte de Dusan, os turcos atacaram e derrotaram os sérvios em 1389, na Batalha de Kosovo-Polje, o que significa "campo dos melros". O príncipe sérvio, Lázaro, é morto. Antes de morrer, porém, mergulhou seu punhal no coração do sultão turco, Murat. O que não impediu a vitória dos otomanos (turcos), que passam a dominar os Bálcãs. Inicia-se a perseguição ou a expulsão dos senhores sérvios, começando a colonização pelos otomanos e seus aliados muçulmanos de Kosovo.
E assim podemos afirmar que, aos olhos dos iluminados da Grande Sérvia, tal como Milosevic, o atual êxodo dos kosovares é o reverso da medalha, ou seja, a vingança da Batalha do Campo dos Melros de 1389. Convém observar que essa comparação não se sustenta pela razão. Não estamos, porém, registrando a história positiva, encontrando-nos antes no terreno dos mitos, sobre os quais Milosevic fundamenta suas ações. A invocação de mosteiros medievais em Kosovo pelo comunista ateu e cínico Milosevic inscreve-se nesse combate de mitos, dos quais a Sérvia extrai efeitos grandiosos.
Outro desastre: o conceito deteriorado dos EUA. O acúmulo de erros cometidos por Clinton e pelo Pentágono transformou em calamidade uma causa justa e necessária. É espantoso verificar que a "direita", geralmente favorável a tudo que nos chega dos EUA (exceção feita aos descendentes do general De Gaulle, apaixonadamente antiamericanos), seja mais crítica em relação à Otan e aos EUA do que à própria esquerda não-comunista.
Para citar um exemplo: a especialista em assuntos russos Helne Carrre dEncausse assina um virulento artigo contra os americanos no Figaro. "A condescendência da potência rica (EUA) em relação à potência pobre (Rússia) não corresponde ao respeito entre os povos que deveria reger as relações internacionais. Há porque temer que essa arrogância de Washington venha a impregnar duradouramente o relacionamento entre os dois países, contribuindo para encorajar uma tendência ao isolacionismo que se delineia na Rússia."
Carrre dEncausse pergunta, com amarga ironia: "Onde fica o centro das decisões internacionais? Na ONU? No Salão Oval de Clinton?"
E, para finalizar, os pessimistas acenam com o espectro de um outro desastre eventual: a propagação do conflito para além das fronteiras da Sérvia. Não nos esqueçamos que as centenas de milhares de kosovares famintos que fogem do sangue e do fogo se estão disseminando em países de economias frágeis e etnicamente instáveis: de Montenegro (que faz parte da Sérvia) à Macedônia, que conta com uma minoria muçulmana albanesa de 30%, e à Albânia, prima de Kosovo. Esse afluxo das hordas kosovares poderá derrubar ou lançar na fornalha esses três países. O que não seria tudo. Estamos nos Bálcãs, esse espaço trágico da história. De onda em onda, o fogo poderia chegar à Grécia (amiga dos sérvios) e à Turquia (próxima dos kosovares).
Dito de outra maneira: durante dez séculos, uma reserva monumental de pólvora acumulou-se nessa zona. E a armada aérea da Otan poderia incendiar essa pólvora.
Não sejamos, porém, excessivamente pessimistas: talvez o gênio irônico da histórica acumule os perigos para, no final, revertê-los em duvidosa esperança. Por exemplo: é possível imaginar uma Europa que, conscientizando-se da impossibilidade de submeter-se cegamente ao comportamento rústico dos EUA, encontre afinal sua lucidez, vontade e energia de adotar tanto uma política comum quanto uma força de defesa autônoma. Por enquanto, ainda não chegamos a esse ponto. Por enquanto, milhares de homens e mulheres sofrem, morrem, vêem sua identidade amputada, seu povo, sua memória. A tragédia é imensa.

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