O acampamento que começou a ser formado na quinta-feira por lavradores sem-terra na fazenda originalmente denominada Refopas, de 554 hectares, entre os municípios de Cascavel e Catanduvas, e que até o final da semana reunia cerca de mil famílias, tinha ontem cerca de 1,2 mil. Segundo avaliação de coordenadores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) do Paraná, a perspectiva é de que o acampamento continue ‘‘inchando’’. Número considerável de favelados e desempregados de Cascavel e de outras cidades da região está se somando ao contingente inicial.
Um dos coordenadores disse que ‘‘aqui todos os despossuídos têm lugar’’, embora frisasse que ‘‘eles têm que ter origem na terra, mesmo que estejam nas favelas’’. Embora não haja cadastramento das famílias, visualmente foi possível verificar ontem que o número de barracos é muito superior ao do final da semana. ‘‘Chega gente todo dia, e quem chega entra; não barramos gente no desespero por um pedaço de chão para plantar e comer’’, disse o coordenador Clavir Cavanos, 37 anos.
Antonio Nunes, 40 anos, de Cascavel, diz que já trabalhou ‘‘na lavoura’’, e não tem emprego. ‘‘Há muito tempo estou sem trabalho e não tenho como dar de comer à família’’, disse. Em outro barraco está Jadete Maria Vieira, 20 anos, solteira, mãe de Everton, 3 anos, e Alexander, 2, este por enquanto na casa da avó, em Ibema. ‘‘Ele virá logo’’, disse Jadete, já apelidada de ‘‘Xuxa’’ pelos vizinhos, por ser loira e de olhos azuis.
Jadete Vieira, a ‘‘Xuxa’’: ‘‘Lugar para sustentar os filhos’’‘‘‘Xuxa’’ rechaça a possibilidade de ficar na cidade, sem emprego. ‘‘Não vou me prostituir para sustentar os filhos. Por isso vim para o acampamento’’, afirmou. Não há remédios e o estoque de comida levado pelas famílias se esgotou, mas ainda há contribuições de assentamentos liderados pelo MST na região. Desde a chegada das famílias fez muito frio no acampamento, e ontem choveu fino.
Pela manhã, um oficial de Justiça informou aos coordenadores sobre o despacho da Justiça de Cascavel, para reintegração de posse da fazenda, mas nenhum sem-terra assinou documento para atestar conhecimento da ordem. ‘‘A gente só sai se for para um local onde seja garantido o assentamento, e não para ter que ocupar outra área e começar tudo de novo’’, disse Clavir Cavanos. A fazenda ocupada compunha um antigo latifúndio, da família Festugato, e hoje tem como proprietária Maria Elisa Festugato. O advogado dela, Adelino Marcon, afirma que a terra é produtiva. Os sem-terra, porém, alegam que ela não cumpre a função social exigida pela Constituição.
Um grupo de aproximadamente dez sem-terra (ou favelados) teria sido barrado na noite de anteontem, ao tentar entrar em uma fazenda vizinha à ocupada. A informação chegou à Polícia Militar de Cascavel e ao acampamento, mas não houve confirmação. O grupo, em um caminhão, teria sido barrado por seguranças da fazenda, e teria havido agressões físicas. No acampamento, um coordenador disse que ‘‘é possível que seja gente de alguma favela de Cascavel que queria vir para cá, bateu no lugar errado, e acabou retornando’’. Fazendeiros estiveram reunidos também na noite de anteontem, na Sociedade Rural do Oeste do Paraná para discutir formas de proteger suas propriedades.
Laudo O governo do Estado divulgou ontem laudo do médico Carlos Roberto Setúbal, de Santa Cruz do Monte Castelo, no Noroeste do Estado, que nega a versão do MST sobre suposta agressão ao lavrador Geraldo José dos Santos, 84 anos, durante desocupação da Fazenda Monte Castelo, no dia 21. O médico afirmou que examinou o aposentado no dia 22 e não havia sinais de agressão. Os exames a que foi submetido também não apontaram nenhum problema. Geraldo recebeu alta anteontem. Segundo a nota do governo, a ficha médica do sem-terra no Hospital Monte Castelo diz que ele fraturou uma costela num acidente de trânsito em 1990.

mockup