Academia sueca opta pela consistência
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quarta-feira, 29 de setembro de 1999
Por CARLOS HAAG (assinatura obrigatória) 
São Paulo, 30 (AE) - Chega de obscuros escritores de recantos distantes do mundo. Desta vez, a Academia Real da Suécia, em Estocolmo, resolveu premiar a consistência e concedeu o Nobel de Literatura de 1999 ao romancista alemão Gunter Grass, de 71 anos
autor de O Tambor (de 1959 e que foi levado às telas por Schloendorff em 79), O Linguado e, mais recentemente, de Mein Jahrhundert (que será publicado no Brasil pela Record). "Sinto-me alegre e orgulhoso e perguntei-me, ao saber, o que tinha dito Heinrich Blll (o Nobel alemão anterior a Grass, em 1972) e concordo, agora, com suas palavras de então: este prêmio me deu uma imensa satisfação", disse o escritor, avisado da vitória a caminho do dentista. Cuja consulta, aliás, não desmarcou. "Tenho certeza de que irá acalmar os meus nervos", brincou.
Para a Academia, Grass fez juz a honraria, "por haver pintado o rosto esquecido da história em fábulas de uma alegria negra". A nota oficial dos jurados faz menção específica à primeira e mais celebrada obra do alemão, O Tambor, que completa exatos 40 anos: "Livro em que ele enfrenta a imensa tarefa de passar em revista a história contemporânea, resgatando os despossuídos e os esquecidos; as vítimas, os perdedores e as mentiras que se quis esquecer, porque uma vez acreditaram nelas e não é excessivo afirmar que esse livro será uma das obras literárias mais perenes do século 20." Por mentiras, leia, é óbvio, o nazismo.
Curiosa reviravolta do destino. Um dos últimos livros de Grass, Um Vasto Campo (também já editado pela Record) foi execrado pela crítica alemã, que não aceitou suas ácidas observações ("Uma pechincha chamada Alemanha Oriental) sobre a malfadada unificação alemã. Há anos cotado para o prêmio, o escritor já perdera as esperanças. "Faz 20 anos que falam dele entre os indicados e já havíamos desistido e simplesmente não esperávamos por isso", revelou a mulher do novelista, Ute. Mas, como Oskar (o protagonista de O Tambor), ele riu por último (inclusive do perdedor, Mario Vargas Llosa, com quem, em 1986, discutiu ferozmente, acusando o peruano de nazista defensor de ditaduras).
No dia 10 de dezembro, em Estocolmo, Grass receberá a honraria e mais um cheque polpudo de US$ 960 mil das mãos do rei Carlos Gustavo XVI da Suécia. Até o ano passado, quando outorgaram o prêmio a José Saramago, a Academia investia apenas em literatos pouco conhecidos, em geral homenageados mais por suas vinculações com um determinado país que sofria nas mãos de algum déspota do que por suas qualidades ficcionais. Mais, sintomaticamente, os suecos mais uma vez premiaram um porta-voz dos direitos humanos. No caso de Grass, aliás, um furibundo crítico do imperialismo ianque que chegou a ser apelidado, pelo teor incendiário de seus discursos, de Profeta Jeremias.
Em 1983, pregou abertamente a desobediência civil, dizendo aos jovens tedescos que não se alistassem enquanto armas nucleares americanas se mantivessem em território alemão. Pegou-se a tapas com o colega Saul Bellow durante a reunião anual do Pen Club ao discutir as virtudes do modelo sócio político dos EUA. Mas o passado o condena. Nascido em 1927, em Gdansk (antes Danzig, o corredor alemão), hoje Polônia, Grass, jovem fez parte da Juventude Hitlerista. Preso em 1945, ingressou, em 1948, na Academia de Belas Artes de Dusseldorf, onde estudou pintura e escultura (duas outras atividades em que se sai bem, além dos livros).
Começou a escrever (à mão, hábito que mantém até hoje), poemas, em 1955 e quatro anos depois fez furor com O Tambor, uma alegoria mágica do entusiasmo alemão por Hitler. Ajudou a fundar o Grupo 47, reunião de jovens romancistas que pretendia renovar o romance germânico. Nos anos 60, ligou-se ao Partido Social Democrata e era figurinha fácil de passeatas pacifistas. Em 1986
irritado com o cenário literário de seu país, exilou-se voluntariamente por um ano na Índia, em protesto às reprovações gerais contra A Ratazana (editado pela Nova Fronteira), uma parábola sem esperança de uma catástrofe nuclear. Pessimista? "Sou como Sísifo: sei que a pedra vai rolar sobre mim, mas não lamento o fato", definiu-se Grass.


