São Paulo, 27 (AE) - Andrzej Wajda agradeceu seu Oscar especial em polonês. Mais do que insuficiência em inglês (que todo mundo mais ou menos arranha, hoje em dia), a fala em língua materna parece ser afirmação do nacionalismo do cineasta. Nada mais coerente com sua carreira. Com a morte precoce de Kieslowski, e o desvio comercial de Polanski, Wajda é o mais importante cineasta vivo da Polônia. Uma carreira já longa, iniciada em 1954 e que conta com algumas obras-primas já em sua fase inicial, como são os casos de Geração (1954), Kanal (1957) e Cinzas e Diamantes (1958). Wajda é artista de rara coerência ideológica. Nacionalista, é talvez um dos últimos remanescentes de uma raça em extinção, o cineasta político, junto com outros veteranos como Francesco Rosi, Costa-Gavras, Pontecorvo. Quer dizer, é artista interessado em refletir, por meio de sua arte, sobre as relações de poder que acontecem em seu país - e no mundo. No caso desses três filmes iniciais, interessava-lhe pensar sobre uma geração, a sua, que havia lutado na 2.ª Guerra Mundial contra o invasor nazista, e saíra do combate disposta a reconstruir o país, e pela via do socialismo.
Esse sonho encontraria sua limitação no caráter autoritário do regime. A burocracia stalinista logo mostrou o preço que iria cobrar e encontrou no cineasta um opositor. Seus filmes mais conhecidos falam do assunto. O Homem de Mármore (1976) e O Homem de Ferro (1979) são dois libelos contra a nomenklatura polonesa, que lhe custaram a censura em seu país.
Seu Danton (1982), encontraria opositores. Há quem ache artificial sua visão desse personagem, vivido por Gérard Depardieu. No entanto, o tema da revolução que devora seus filhos era oportuno para quem apoiara uma política de aparência progressista e logo em seguida vira a sua face real. A história às vezes atropela seus protagonistas e os transforma em meros figurantes. Aconteceu na França revolucionária, na Polônia do pós-guerra, na União Soviética de Gorbatchev. Essa preocupação histórica se infiltra na estética de Wajda porque, como homem adulto, ele sabe que política é assunto que diz respeito a todos e a cada um. Queira-se ou não.

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