'Acabou o ciclo do comprismo na fronteira'
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quarta-feira, 23 de março de 2005
Lúcio Flávio Moura<br> Reportagem Local 
Foz do Iguaçu- Foz do Iguaçu é uma cidade com força suficiente para ressurgir após esgotamentos de ciclos de desenvolvimento. Pelo menos para o prefeito Paulo Mac Donald Ghisi (PDT), ela está preparada para dar início a outra era, ancorada no crescimento do turismo convencional e na industrialização a partir de um parque têxtil em processo de implantação.
Mac Donald é de uma geração que foi testemunha do primeiro ciclo de desenvolvimento, há cerca de um quarto de século, quando a mais monumental obra já realizada em território nacional a Hidrelétrica de Itaipu havia transformado a bucólica cidade de fronteira no mais fervilhante eldorado econômico do Estado.
Quando o canteiro gigante, onde chegaram a trabalhar simultaneamente 30 mil homens, silenciou, Foz já não era bucólica e havia se transformado em um centro econômico importante, a ponto de enfrentar com dignidade o duro golpe de ter que dar trabalho a tanto operário que ficou desempregado da noite para o dia. ''Desde que Itaipu passou a funcionar, Foz recebeu da União US$ 30 milhões de royalties. Não é uma crítica, mas uma observação: poderíamos ter feito um plano de geração e renda consistente, o que acabou não acontecendo''.
Mas, à sua maneira, a cidade venceu o desafio e continuou crescendo, junto com os efeitos colaterais da rápida urbanização. Uma década depois, encontrou outro norte. Ciudad del Este, vizinha do lado paraguaio, havia se tornado em um grande shopping center, para onde convergiam milhares de brasileiros sem qualificação profissional mas com muita vontade de ganhar dinheiro. A Ponte da Amizade era a imagem mais clássica da informalidade que havia dominado os dois países.
Os sacoleiros desencadearam o segundo ''boom''. Os empregos se multiplicaram em hotéis, restaurantes, nos transportes alternativos e nas atividades satélites, quase sempre ilícitas. Sem perceber, a cidade havia se transformado em uma vilã nacional, símbolo de contrabando, tráfico de drogas, de terrorismo internacional, de violência urbana.
O arrocho na fiscalização desde o final do ano passado de acordo com o prefeito, antes havia uma ''falsa fiscalização'' e hoje existe uma ''ação inteligente da RF'' e a retaliação paraguaia com perseguição aos trabalhadores brasileiros do outro lado da fronteira acabaram com o chamado ''comprismo''. ''Do modo como era, não vai ser mais. A cidade terá que buscar outras formas de desenvolvimento''.
Mac Donald diz que já está gerando empregos com um pacote de obras no valor de R$ 3,5 milhões, com a construção de casas populares, com a organização de catadores de lixo em uma cooperativa. O prefeito também tem esperança em conseguir outras obras de grande porte, como a duplicação da Avenida Cataratas e a construção do Contorno Leste.
O município adquiriu uma área de 54 alqueires, onde pretende instalar 14 indústrias. A expectativa é que o novo parque fabril empregue pelo menos 1,2 mil pessoas, especialmente em fábricas de tecido. ''Não temos medo da industrialização. Ele não prejudica o turismo'', defendeu, referindo-se a um antigo tabu do empresariado da cidade.
O momento de transição está provocando angustiadas manifestações políticas, como ocorreu esta semana na Câmara de Vereadores, o presidente da casa,
Carlos Budel (PTB). Ele pediu para os colegas ''deixarem o discurso de lado e partir para a ação''. No discurso, Budel disse que os vereadores não podem ser ''pacientes'' com a ''paralisação da cidade''
No dia 1º de abril, representantes de todas as modalidades de ocupação profissional, formal e informal, que orbitam na fronteira, estarão reunidos na Câmara para uma Assembléia Popular convocada com os vereadores.
O próprio prefeito escreveu um artigo intitulado Relatório de Impacto Social, no qual faz um análise da conjuntura na fronteira. ''Se a cidade não se preveniu para a extinção deste mercado tampouco os governos estadual e federal o fizeram'', diz um trecho do artigo, finalizado com um pedido de socorro às autoridades federais.
No meio sindical, também há burburinho. O Sindicato dos Empregados no Comércio de Foz do Iguaçu convocou uma assembléia geral para o dia 31 de março. Segundo o texto da convocação, ''o aperto na fiscalização por parte da Receita Federal, somado à crise financeira que assola os trabalhadores, deixa milhares de famílias em desespero, sem vislumbrar melhorias no seu bem-estar''. O encontro dos trabalhadores deve resultar em uma carta à presidência da República com várias reinvindicações, entre elas o aumento da cota para compras de US$ 150 para 300,00, seguro-desemprego para os brasileiros que atuavam em Ciudad del Este e a criação da Zona Franca de Foz do Iguaçu.


