Absolvido réu da chacina da Candelária
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de junho de 1997
Agência Estado Rio 
Quase quatro anos depois da chacina da Candelária, um dos réus confessos do crime foi absolvido. Em julgamento que terminou na madrugada de ontem, os jurados consideraram que o ex-soldado da Polícia Militar Nelson Oliveira dos Santos Cunha não participou da chacina que resultou na morte de oito menores de rua, em 23 de julho de 1993, apesar de o réu ter sido condenado em seu primeiro júri a 261 anos de prisão. A decisão surpreendeu os presentes ao julgamento no 2º Tribunal do Júri. O próprio Cunha reconheceu a façanha com um gesto ao final da sessão, abraçando demoradamente seu advogado, Maurício Neville.
Apesar de ter sido considerado inocente em relação aos oito homicídios, Cunha terá de cumprir 18 anos de prisão. Ele recebeu essa condenação no primeiro julgamento a que foi submetido, em novembro do ano passado. A pena é referente à tentativa de homicídio contra o guardador de carros Wagner dos Santos, sobrevivente e principal testemunha da chacina. A tentativa de homicídio contra o guardador não foi a novo júri porque só há novo julgamento em condenações iguais ou superiores a 20 anos.
Cunha foi absolvido, por cinco votos a dois, dos dois assassinatos ocorridos em frente ao Museu de Arte Moderna (MAM), no Centro do Rio, onde começou a chacina. Quanto aos seis menores mortos em frente à Igreja da Candelária, o júri, composto por quatro homens e três mulheres - seis servidores públicos e uma aposentada -, considerou por quatro votos a três que o ex-PM não teve participação no crime.
A promotora Glória Percinoto disse que vai recorrer alegando que a decisão foi manifestamente contrária às provas dos autos. O recurso será analisado por três desembargadores da 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça, e deve ser julgado somente no fim do ano. O procurador de Justiça José Mui¤os Pi¤eiro Filho, que acompanhou a apuração do caso quando era promotor titular do 2º Tribunal do Júri, não escondeu sua decepção. Como cidadão e, diante da decisão dos jurados, me sinto até envergonhado, disse Pi¤eiro, que representou a acusação no primeiro julgamento de Cunha, quando ele foi considerado culpado em todos os homicídios por seis votos a um. Parece que a sociedade está optando por decisões que se aproximam do extermínio como solução para problemas sociais, queixou-se. Para Pi¤eiro, uma explicação para a absolvição de Cunha pode ter sido o fato de que o réu já estava condenado a 18 anos, e que nesse caso os jurados entenderam que essa pena já seria suficiente.


