São Paulo, 03 (AE) - Abril será decisivo para o Brasil. Até meados do mês, o governo Fernando Henrique Cardoso e o Fundo Monetário Internacional (FMI) saberão se a principal meta firmada com a instituição - o resultado consolidado das contas públicas pelo conceito primário, que não inclui despesas com juros - foi cumprida, atingindo superávit de 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB). A expectativa de economistas entrevistados pelo Agência Estado é de que esse objetivo seja atendido sem maiores dificuldades.
São muitas as expectativas na abertura do trimestre. A queda acentuada do dólar, embora comemorada, é reconhecidamente um problema. Se o governo não conseguir preservar a desvalorização real de aproximadamente 25% para a moeda brasileira, a redução da taxa de juro é considerada inevitável. Mas há o temor de que um desempenho pífio da balança comercial acabe inibindo cortes mais expressivos e necessários no custo do dinheiro, mantendo as empresas brasileiras num atoleiro financeiro em troca de uma remuneração mais atraente para o capital externo de curto prazo. O ajuste fiscal avança, mas a CPMF ainda é considerada uma fonte paliativa de receita. "Se as expectativas são muitas, é fundamental que não sofram deterioração e o presidente da República continue afirmando que a crise é séria e não tente recuperar a perda de popularidade em um mês", alerta José Augusto Savasini, da Rosenberg & Associados.
Para José Júlio Senna, da MCM Consultores, o governo deve suar a camisa e fazer o impossível para melhorar o risco Brasil. Jorge Simino, da Unibanco Asset Management (UAM), acredita que neste trimestre uma grande batalha será travada no câmbio, pondo frente a frente os setores financeiro e real da economia.
José Antônio Pena, economista-chefe do BankBoston, alerta para a necessidade urgente de o governo aprofundar as medidas de ordem fiscal, enquanto o economista-chefe do ING Bank
Mauro Schneider, atento ao câmbio e aos reajustes salariais, não perde o humor e garante: "Daqui para a frente, a cada passagem de mês estaremos matando um leão. Um trimestre é muito tempo."
Em abril, o mercado estará de olho em quatro questões consideradas básicas por José Júlio Senna: no comportamento da inflação, levando em conta a expectativa de que os índices apenas façam uma corcova e recuem a níveis próximos dos registrados antes da liberalização do câmbio; na trajetória dos juros, que devem sofrer redução expressiva; nos sinais de recuperação do nível de atividade; e no balanço de pagamentos, que, ao lado da questão fiscal, terá comportamento decisivo para evitar um aprofundamento da recessão econômica.
"Essas quatro questões estão relacionadas diretamente com o câmbio", comenta Senna, ex-diretor da Dívida Pública do Banco Central. Ele alerta para a sensibilidade que será exigida do BC na calibragem da taxa de câmbio. "Se a tendência para R$ 1,70 não for consolidada nas próximas semanas, seguramente teremos problemas com a inflação", afirma. "Em particular, com os preços industriais." Por outro lado, diz, "se a taxa de câmbio ceder demais, estaremos trilhando o caminho do México, em que a inflação engolirá a desvalorização real, que deve ficar em 25%".
Jorge Simino, da UAM, lembra que a economia real definiu um "dólar virtual" entre R$ 1,70 e R$ 1,75 para não paralisar seus negócios enquanto o câmbio estava desgovernado. Na medida em que a cotação da moeda se mantém direcionada para esses alvos - como está ocorrendo agora - os índices de inflação, por exemplo, não captam variações substantivas nos preços industriais. Mas, se o dólar sofrer um repique, a renovação de contratos entre indústrias e fornecedores dificilmente vai ignorar um novo nível de taxa, o que pressionaria os preços. Na contramão, se o dólar ceder excessivamente - com a melhora do fluxo de ingresso de capital externo no País, já observada -, é possível que o governo tenha de bancar a diferença na remuneração desse capital mantendo os juros em níveis elevados por mais tempo.
O executivo da Unibanco Asset Management chama atenção para o impacto dos reajustes das tarifas de serviços públicos, alguns fornecidos por concessionárias particulares, sobre os índices de preços. Em destaque estão os preços dos combustíveis e energia elétrica, o último ainda em análise. Também exige atenção o desempenho da balança comercial em abril, pois o saldo do primeiro trimestre, acredita, será negativo e, portanto, frustrante. "Descontando o primeiro trimestre e os últimos dois meses do ano, quando a tendência é de resultados decepcionantes dado o aumento histórico das importações, sobram sete meses para que o País obtenha um superávit comercial de aproximadamente US$ 6 bilhões", lembra Simino. "Embora a meta indicativa firmada entre o governo e o FMI seja de US$ 11 bilhões, o mercado acredita que deva ficar em US$ 6 bilhões, o que já significa um grande desafio, pois o superávit mensal a partir de abril deve ser da ordem de US$ 1 bilhão", diz. "Se neste mês o governo apresentar um resultado frágil, teremos dois problemas: de um lado, será muito difícil o mercado esticar a ilusão de que a credibilidade externa estará solidamente recuperada; de outro lado, poderão crescer pressões por maior desvalorização, provocando instabilidade no câmbio de regime flutuante e um cenário em que o Brasil estará, como no passado, mais dependente do fluxo de capitais para acertar sua fatura externa", comenta Simino.

mockup