Brasília, 15 (AE) - Nas comemorações do 1º de maio de 1968, o então governador de São Paulo, Abreu Sodré, resolveu desafiar as recomendações de cautela feitas pelo governo federal e participar de comício na Praça da Sé. Começou a falar, mas não conseguiu terminar o discurso porque foi atingido na testa por uma barra de ferro enrolada em papel, atirada por manifestantes da esquerda. A história é lembrada pelo ministro do Trabalho na época, Jarbas Passarinho. "Isso mostra que, até de forma temerária, Abreu Sodré não era homem de se esconder", observa o ex-ministro, que hoje preside a Fundação Milton Campos, braço intelectual do PPB.
Passarinho relata que acompanhou de Brasília toda a movimentação política em torno do comício e recomendou ao governador providências "acauteladoras". "Soubemos que havia uma arregimentação de grupos de esquerda dispostos a fazer baderna; mesmo assim, ele foi ao comício", lembra. Outro momento marcante relembrado por Passarinho foi a atuação conjunta dos governos federal e estadual para enfrentar a greve dos metalúrgicos da Cobrasma (empresa que fabricava trens) em 1968.
"A greve era de natureza político-partidária e ficamos na casa de um parente do Abreu para dirigirmos a operação e vencer a crise da ocupação da fábrica", recorda o ex-ministro, acrescentando que os metalúrgicos ameaçavam atear fogo na fábrica, caso houvesse invasão da polícia. A invasão aconteceu de madrugada, houve confronto, mas ninguém morreu, conta Passarinho, que determinou à polícia que não cercasse os fundos da fábrica para permitir a fuga dos grevistas. "Como governador
foi um homem que mostrou coragem", define Passarinho.
O ex-ministro da Justiça do governo João Baptista Figueiredo, deputado Ibrahim Abi-Ackel (PPB-MG), lembra a preocupação de Sodré com os atentados que ocorreram no fim do regime militar, quando foram queimadas bancas de jornais e explodidas bombas na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e nas comemorações do 1º de Maio, no Riocentro. "Ele era um homem preocupado com as instituições democráticas", afirma Abi-Ackel, lembrando que foi procurado por Sodré em três ou quatro ocasiões. "Ele saía de São Paulo e vinha a Brasília pedir-me que fosse intérprete junto ao presidente das preocupações dele com o processo de abertura", relata. "Queria que o presidente Figueiredo não sucumbisse às pressões atribuídas a correntes militares insatisfeitas com a abertura política", acrescenta o ex-ministro.
Alguns anos depois, Sodré seria convidado pelo então presidente, José Sarney (PMDB), para integrar o ministério. Os dois conheceram-se no fim dos anos 60, quando eram governadores - Sodré, de São Paulo, e Sarney, do Maranhão. Ficaram amigos e sempre participaram de articulações políticas. Numa viagem que fizeram para Angola, na época em que Sarney era presidente e Sodré, ministro das Relações Exteriores, os dois conversavam sobre política, quando, depois de terem tomado algumas doses, o ministro voltou-se para o presidente e disse: "Sarney, você não entende nada de política." Sarney respondeu: "Sodré, nós dois fomos governadores na mesma época e você, mesmo sendo um paulista quatrocentão, não chegou a ser presidente da República e eu cheguei; portanto, quem não entende de política é você."

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