Porto Alegre, 27 (AE) - A demora na recuperação da economia do País e o comprometimento de parte do poder aquisitivo dos consumidores pela elevação das tarifas públicas deverão provocar uma queda de até 2% nas vendas dos supermercados brasileiros este ano em relação a 1998. A projeção é do presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), José Humberto Pires de Araújo, com base no desempenho negativo de 2,6% acumulado de janeiro a outubro.
"O número de outubro foi surpreendente para o setor", comentou Araújo, em reunião na Federação das Associações Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul). Logo após a apuração das vendas até agosto, quando a queda acumulada atingiu 2,12% em comparação com o ano passado, a Abras havia revisto a previsão de desempenho para o ano de estabilidade para retração de 1%. Agora a projeção ficou entre 1,6% e 2% negativos.
Conforme o presidente da Abras, o setor esperava recuperar parte das perdas do primeiro semestre (1,34%) já em julho, a partir da acomodação do dólar em patamares projetados ao redor de R$ 1,75. A nova onda de valorização da moeda norte-americana, entretanto, impediu a reação da economia na "velocidade esperada", assim como as indefinições em torno das reformas constitucionais geradas pela "dificuldade de articulação política" no Executivo.
No ano passado as vendas dos supermercados brasileiros somaram R$ 55,5 bilhões. Em 1999 os negócios deverão superar R$ 60 bilhões, mas o índice de variação é deflacionado pelo IGPDI, da Fundação Getúlio Vargas, que deverá superar os 10% este ano e provocar a queda estimada pela Abras, comentou Araújo.
O dirigente reconheceu que existe uma "defasagem" entre os índices de preços no atacado e no varejo, mas garantiu que isso não significa um repasse a "curto ou médio prazos" ao consumidor. "A pressão dos fornecedores está sendo administrada pelo setor", garantiu.
A orientação da entidade, nos casos de pedidos "injustificados" de reajustes, é que as empresas busquem alternativas de abastecimento. As maiores reivindicações por aumentos, conforme Araújo, estão localizadas nos segmentos de commodities, que têm preços atrelados ao dólar, e de produtos importados ou com componentes estrangeiros.
Apesar da queda das vendas e das pressões sobre os preços, a Abras acredita que as vendas deste final de ano, particularmente no Natal, serão maiores que as do mesmo período de 1998. Entre os motivos da reação, ainda que insuficiente para equilibrar o desempenho acumulado no ano, na opinião do presidente da entidade, estão as promoções previstas a partir de negociações de descontos com os fornecedores que precisam "cumprir cotas" de vendas.
Outra razão seria o estímulo de "fatores psicológicos" provocados pela aproximação do fim do milênio e que tornariam as pessoas "mais dispostas a gastar" nas festas e comemorações. O crescimento sustentado das vendas dos supermercados, entretanto, depende do desenvolvimento da demanda interna, entende o dirigente.
Este fator, por sua vez, está vinculado às reformas constitucionais e à capacidade competitiva do Brasil no exterior para aumentar as exportações por intermédio de uma política mais "agressiva" de promoção comercial e estímulos fiscais. "Não há nada que possa ser feito no curtíssimo prazo para esta recuperação", avaliou Araújo.
Concentração - Até o final do ano que vem perto de 50% das vendas totais dos 22 mil supermercados brasileiros deverão estar concentradas nos cinco maiores grupos em operação no País. Hoje este índice atinge 40,6% (em comparação com 27% em 1997), distribuído entre Carrefour, o Pão de Açúcar, Sonae, Bom Preço e Sendas.
"Este é um movimento que já esperávamos, pois começou com a indústria, passou pelo sistema financeiro e chegou ao varejo", disse o presidente da Abras. Na opinião dele, os novos negócios que vão definir o "desenho" do setor no País deverão ocorrer em maior escala no primeiro semestre do ano que vem.
Por enquanto, o momento é de "espera", afirmou o dirigente. Os possíveis negócios estão "em análise" pelas empresas envolvidas e as decisões somente deverão ser tomadas no início de 2000, acredita. Segundo Araújo, o consumidor não será prejudicado pela concentração das vendas, que pelas projeções da Abras ainda ficaria abaixo de países como Alemanha (onde os cinco maiores têm 75% das vendas totais), França (67%) e Portugal (52%). Pelo contrário, ao adquirir escala internacional
os supermercados teriam condições de negociar melhores preços com fornecedores também multinacionais, gerando "maior competitividade" no mercado.
O presidente da Abras disse ainda que é "impossível" ocorrer cartelização do setor. "Não é da cultura do varejo", afirmou. Os supermercados não têm qualquer possibilidade de formação de preços porque trabalham com uma "variedade imensa de itens e fornecedores", comentou Araújo.

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