Curitiba - Um dos mais graves problemas de saúde pública no Brasil é o abortamento espontâneo. Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) demonstram que cerca de 31% das mulheres que engravidam, perdem seus bebês antes de completar a gestação. Anualmente, 1,4 milhão de abortos espontâneos são registrados no Brasil. A taxa é de 3,7 abortos para cada 100 mulheres com idades entre 15 e 49 anos. Somente no ano de 2003, o Sistema Único de Sa© úde (SUS) recebeu 236,4 mil internações motivadas por curetagens pós-aborto, num custo total de R$ 28,9 milhões.
Atualmente, o abortamento é a quarta causa de morte materna no Brasil. Os dados mais recentes disponíveis são de 2001. De acordo com eles, a cada 100 mil nascidos vivos, 9,1 mulheres morrem por conta de aborto espontâneo. O Anuário Estatístico de Saúde do Brasil demonstram que no Paraná a situação também é grave. A cada 1000 nascimentos, ocorrem 16,4 mortes de fetos. A mortalidade materna também pode ser considerada grave. Somente no ano passado foram 155 mortes, o equivalente a 53,3% das mortes maternas ocorridas por abortamento espontâneo no Sul do Brasil e 13,6% das mortes que foram registradas em todo o País.
As mortes ocorrem normalmente em mulheres com idades entre 20 e 39 anos. Um perfil feito nacionalmente demonstra ainda que 71,5% das mulheres mortas por abortamento espontâneo são brancas, 61,3% são casadas, 70,3% com baixa escolaridade (entre um e sete anos de estudo) e 63,8% recebem até três salários mínimos. Entretanto, 81,1% delas fizeram exames pré-natal. Mais de 58% delas fizeram seis consultas ou mais e não tiveram como evitar a perda do feto e a morte. Mais de 59% fizeram as consultas na rede pública municipal.
Dados do Paraná demonstram que em nove anos, foram registradas as mortes de 48,1 mil fetos de forma espontânea. Morreram 1,3 mil mulheres em igual período. ''As mulheres que sobrevivem a um abortamento espontâneo têm sérios problemas psicológicos porque sofrem de dor de luto. O ideal é tratar o luto. Deixar que ela sofra, que chore, que sinta a perda do seu filho para que possa tocar a vida'', analisou a psicóloga Vera Lúcia Boeing. Se a mulher supera o período de luto, ela pode ter novamente uma gestação. Só que tranquila. ''A gravidez muito desejada piora a situação interna da mãe. Ela sente muita tristeza, medo. Temos que cuidar para que ela não somatize este medo e essa tristeza e acabe debilitando seu sistema imunológica'', salienta a psicóloga.

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