São Paulo, 11 (AE)- As mudanças estruturais produzidas pela abertura e pela estabilidade econômica, aliadas à recessão, frearam o impacto da desvalorização do real sobre a inflação, mas o efeito destes fatores pode ter sido inicialmente subestimado. Para o economista Mauro Schneider, do ING Bank, analistas que previram a explosão dos preços, projetando inflação de até 80% em 99, partiram do modelo vigente até o início dos anos 90, quando a indexação fazia com que qualquer variação cambial fosse imediatamente repassada aos preços. Porém
boa parte dos economistas e analistas, afirma Schneider, considerou desde o início o efeito das mudanças estruturais e da conjuntura recessiva sobre a economia após a desvalorização do real, embora tenham subavaliado a capacidade de a economia absorver a mudança cambial. Tanto que, de acordo com o economista do ING, a previsão destes especialistas era de um a inflação entre 15% e 20% ao ano, bem acima da que está sendo observada, mas sem explosões de preços.
"O que está acontecendo é que o impacto das mudanças que a economia viveu nos útimos quatro anos está sendo muito maior do que se imaginava", afirmou Schneider. Além da mudança na mentalidade do consumidor, houve uma melhora significativa da produtividade, que ajuda a amortecer as pressões inflacionárias. Schneider lembra que o setor varejista, sobretudo os supermercados, está tendo papel relevante para evitar uma disparada dos preços. E este setor teve grande ganho de eficiência, com aumento do tamanho das lojas. O comércio pôde assimilar pressões inflacionárias e teve força para negociar com a indústria.
Além disto, com a abertura econômica, iniciada no começo da década e acelerada após o lançamento do real, a competição cresceu em todos os setores, criando um ambiente desfavorável a reajustes de preços. A recessão também teve papel fundamental na transição de modelo cambial, ao desencorajar repasses. Contudo, Schneider vê especificidades no processo recessivo brasileiro. Diferente de outros países que passaram por crises, no Brasil o desaquecimento econômico foi gradual e começou muito antes da desvalorização, ainda na crise asiática, no final de 97. Ou seja
quando o real se desvalorizou, a economia já estava desaquecida
com expressiva capacidade ociosa entre as empresas, o que tornou quase que desnecessário um novo e muito maior choque recessivo.
Outro aspecto lembrado por Schneider é que a desvalorização brasileira era esperada por grande parte do mercado e as empresas se protegeram com operações de hedge. Na ásia, por sua vez, as empresas foram surpreendidas pela mudança cambial altamente endividadas, o que gerou uma ampla desorganização do setor prod utivo e impulsionou o impacto recessivo da desvalorização. "No Brasil, até agora, o grande perdedor da desvalorização foi o setor público", disse o economista.
Schneider considera que uma das consequências favoráveis da liberalização cambial é o de permitir a concentração do foco do governo na questão fiscal. No regime cambial "quase fixo" anterior, havia disputas políticas e acadêmicas em torno da política cambial que, em muitos casos, colocavam a questão fiscal em segundo plano. Neste sentido, vencidas as primeiras batalhas para segurar a inflação e estabilizar o câmbio, Schneider considera que, cada vez mais, o mercado vai passar a acompanhar o desempenho fiscal do governo como ponto determinante do cenário de investimentos.
Para este ano, o economista considera que as condições são favoráveis para o cumprimento da meta de superávit primário (de 3,1 % do PIB) com o FMI. Primeiro porque o governo já conseguiu certa folga nos números do primeiro trimestre e, a partir do segundo semestre, a CPMF e o reaquecimento econômico devem ajudar a melhorar as contas governamentais pelo lado da receita. O aumento do salário mínimo, inferior ao que vinha sendo discutido, também melhora a percepção sobre os gastos públicos no ano.
Questão fiscal - A maior preocupação do investidor, segundo o economista do ING, é hoje com a condição estrutural das contas públicas, que ainda não é tranquilizadora para o longo prazo. Ele observa que, na melhora dos números deste ano, há muito de circunstancial e pouco de estrutural. A CPMF, por exemplo, já nasce com prazo para acabar. Muitos cortes de gastos
como os de investimento das estatais e em áreas sociais, representam compressão de despesas muitas vezes necessárias e que precisariam ser substituídas por cortes definitivos. Há ainda os gastos que são postergados, mas que serão retomados no futuro. Também não se sabe quanto tempo ainda o governo vai resistir sem dar reajuste aos servidores públicos. O investidor só vai dormir tranquilo sobre a realidade fiscal brasileira, disse Schneider, quando estas medidas emergenciais forem substituídas por um novo arcabouço fiscal a ser desenhado pela reforma tributária e pela regulamentação das reformas administrativa e da Previdência.
As liminares que vêm sendo concedidas contra a contribuição dos servidores inativos geram desconforto, mas Schneider considera que o mercado só vai se posicionar diante desta questão quando houver uma palavra final do STF, ao qual o governo deve recorrer se as instâncias inferiores continuarem dando ganho de causa ao funcionalismo. Ainda sobre o déficit público, o economista do ING Bank considera que a maior cobrança do meio financeiro é para uma mudança de atitude do governo. "O governo tem que ser pró-ativo, antecipando-se aos problemas, e não reativo, como vinha sendo até pouco tempo atrás", afirmou.
Otimismo - Embora a melhora conjuntural ainda não esteja garantida para o longo prazo, o economista Mauro Schneider, do ING Bank, não vê com preocupação a onda otimista vivida pelo mercado, considerada excessiva por alguns analistas. Schneider lembra que os excessos são normais em períodos de transição no mercado. "O otimismo agora é proporcional ao pessimismo vivido nos piores momentos da crise, quando também houve excessos representados pelas previsões catastrofistas e pelo overshooting do dólar", comentou o economista.
Para ele, o governo está longe de completar a chamada "lição de casa" na economia, mas algumas bases da atual onda de entusiasmo com o Brasil são realistas, pelo menos no que diz respeito ao curto e médio prazos. Em sua opinião, diante das circunstâncias de hoje, não é exagero esperar dólar em no máximo R$ 1,70 até o final do ano, inflação anual de um dígito e recessão menor que os 4% inicialmente previstos. Considerando-se os níveis atuais de inflação, os juros poderiam já ser menores do que os atuais 29,5% do over-selic, mas Schneider considera correta a postura cautelosa do Banco Central. Ao baixar os juros de forma gradual, o BC é coerente com o gradualismo da melhora dos fundamentos da economia.
Além disto, mantém o viés das taxas sempre de baixa, o que, na opinião de Schneider, "tem um valor agregado". Se o BC baixasse as taxas de uma vez, o viés poderia passar a neutro ou de alta e o mercado tornaria a viver a incerteza da possibilidade de alguma surpresa negativa, interna ou externa.
Um ponto levantado por Schneider é o balanço de pagamentos. Por ora, a melhora da balança comercial foi pouco expressiva e garantida apenas pela queda das importações. Uma eventual retomada rápida e descontrolada da economia, que poderia ser detonada pela queda abrupta dos juros, poderia reaquecer as importações e trazer de volta o problema do financiamento das contas externas, isto num momento em que a credibilidade do país no exterior, apesar da melhora, ainda não se recuperou totalmente.

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