Ilha de Imrali, Turquia, 29 (AE-AP) - De dentro de uma sala à prova de balas instalada no meio de um tribunal na prisão insular de Imrali, o líder rebelde curdo Abdullah Ocalan deu um passo abrupto na direção de seus advogados e lançou-lhes olhares ameaçadores, ordenando para que eles se sentassem e se calassem.
Aquele momento - durante seu julgamento por traição - captou o carisma e o estilo de Ocalan, os quais, junto com armas e bombas, marcaram 15 anos de luta pela autonomia curda no sudeste da Turquia, uma batalha que valeu a vida de milhares daqueles que se uniram a um dos movimentos mais brutais e mais bem organizados do mundo.
"Éramos 60 pessoas", disse Ocalan sobre o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), o qual ele fundou em 1978. "Agora, somos 10.000". Enquanto conduziu o movimento, Ocalan tratou seus principais assessores como crianças. Aqueles que ousavam desafiar sua autoridade eram condenados à morte, incluindo sua própria mulher, condenada em 1986 por se unir aos oponentes de Ocalan, que o acusavam de usar políticas ditatoriais.
"Eu impedi a execução dela", disse Ocalan. "Eu acho que ela está viva. Deve estar na Suécia." Mas enquanto ele era temido, também ganhou o afeto de seus seguidores e o apelido de presidente "Apo", um diminutivo de Abdullah.
Oral Calislar, um jornalista turco que entrevistou Ocalan em 1993, comparou a autoridade suprema do líder curdo na organização a um sistema feudal.
Os inimigos de Ocalan o retratam como um homem grosseiro, instável, que seduziu mulheres para que o seguissem. Um canal de televisão turco o mostrou dizendo a um grupo de guerrilheiras, "Lutar ao meu lado é uma honra". Leais fanáticos, seus seguidores rebeldes lutaram e morreram em montanhas cobertas de neve enquanto ele passava o tempo em uma vila em Damasco ou nas planícies do vale de Bekaa, controlado pela Síria, onde ele manteve um campo de treinamento.
"Posso dizer que nunca usei uma arma", disse Ocalan durante seu julgamento. "Sou um homem de estratégia e ideologia".
Um dos sete filhos de uma família pobre que vivia perto da fronteira com a Síria, o estudante que abandonou os estudos do departamento de Ciências Políticas da Universidade de Ancara combinou os pensamentos de Marx, Lênin e Mao.
"Não criei a questão curda, eu a achei na minha frente em Ancara", disse Ocalan ao tribunal em referência à condolência à época da esquerda turca com os curdos.
Ocalan (que significa vingador em turco) descreveu uma proibição ao idioma curdo depois de 1980 como um golpe militar "que contribuiu para aumentar a opressão" contra seu povo.
"Eu nasci com este idioma, uma pessoa não significa nada se ela não pode falar seu próprio idioma", disse ele. Entretanto, é sabido que Ocalan fala pouco curdo e se comunica geralmente em turco perfeito. Segundo ele, apenas sua mãe era de origem curda.
A língua curda foi legalizada em 1991, mas continua ilegal nos meios de comunicação e na educação.
Depois de servir sete meses em uma prisão militar por distribuir uma revista esquerdista em 1972, Ocalan se ocupou de atividades clandestinas antes de montar um grupo que lutaria por um Estado curdo independente.
Mas durante seu julgamento, ele classificou a meta de independência como "imaginária e desnecessária".
Entretanto, Ocalan apenas formou o PKK quando acreditou ter bastante seguidores para começar uma rebelião. Um ano depois, em 1979, uma repressão policial contra seus militantes obrigou o líder curdo a fugir para a Síria, de onde comandou suas tropas à distância.
Quando a Turquia pressionou Damasco a desalojá-lo, em outubro do ano passado, Ocalann disse ter tido duas opções. "Eu tive medo de voltar às montanhas. Eu estava cansado", disse ele durante seu julgamento
Sua outra opção, que acabou sendo escolhida pelo líder rebelde, foi a de fugir pela Europa e a qual terminou com o que ele chamou de traição dos "países que afirmavam ser seus amigos". Ele foi capturado por forças turcas no Quênia em fevereiro.
O aparecimento de Ocalan no tribunal vestindo uma jaqueta cinza escura foi uma contradição ao líder que usava apenas cores militares e sapatos esportivos. Seu cabelo espesso e cinza era no estilo militar.
Contam que Ocalan desejava ser um oficial do exército turco, mas que fracassou no teste de aptidão.
Chamado pelos turcos de "assassino de bebês" e "terrorista sanguinário", Ocalan aproveitou seu julgamento para pleitear por sua vida, prometendo que, caso fosse poupado da pena capital
lutaria para pôr um fim à matança.
Mas quando alguns jornais turcos o compararam com "um gatinho que finge ser inocente depois de ter derramado o leite"
Ocalan replicou furiosamente: "Não sou um gatinho".

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