ABC pode ter atendimento obstétrico integrado por sugestão de Serra
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2000
Por Cristina Charão 
São Paulo, 31 (AE) - O ministro da Saúde, José Serra, vai negociar a criação de um sistema integrado de atendimento obstétrico no ABC paulista com os secretários municipais de saúde da região, numa reunião marcada para sexta-feira. Serra quer criar um sistema entre os hospitais para evitar novos casos como o da doméstica Maria José Teixeira, de 21 anos, que perdeu o primeiro filho no dia 25, após passar por dois hospitais de Santo André. Ela esperou mais de 24 horas, depois de rompida a bolsa, para realizar o parto.
Hoje, ao meio-dia, o ministro visitou Maria José, em sua residência, no porão de uma casa no bairro Vila Alice. Serra também inspecionou o Hospital e Maternidade Pró-Matre, onde foi realizada a cesariana, e a Santa Casa de Santo André, que fez o primeiro atendimento. A Secretaria de Segurança Pública do Estado vai abrir inquérito policial e o procurador-geral de Justiça, Luiz Antônio Marrey, indicará um promotor para acompanhar o caso. "Claro que não é possível devolver a vida à criança, mas pretendemos ter uma conduta exemplar para evitar que casos como esse se repitam", disse Serra.
Logo após a zero hora do dia 24, Maria José chamou sua vizinha, Ana Lúcia Saragoza, para que a ajudasse a ir até o hospital. A doméstica sentiu a bolsa romper e decidiu dirigir-se à Santa Casa de Santo André, onde realizara os exames pré-natais. Cinco dias antes, quando se encerrou o prazo previsto para o nascimento, Maria foi ao hospital para saber se havia algum problema. Um exame rotineiro de cardiotocografia, que mede a atividade cardíaca do feto, realizado num hospital de São Bernardo do Campo, mostrou que tudo estava bem.
No dia 24, os médicos pediram que ela retornasse para casa e esperasse até que as contrações começassem. Segundo o prontuário de atendimento, a bolsa, até aquele momento, não se havia rompido. "O médico disse que ela estava com vontade de urinar", contou Ana Lúcia. Dores - Perto das 13 horas, Maria passou por outra consulta na Santa Casa. O hospital atende partos de risco, dos quais 30% são de pacientes vindas de outras cidades do ABC. Com todos os leitos lotados e concluindo que o caso não era grave, os médicos a encaminharam para o Hospital e Maternidade Pró-Matre, uma das duas instituições que mantém convênio com o SUS em Santo André.
"No Pro-Matre, me deram o soro e eu comecei a sentir as dores, mas ninguém me ajudava", disse Maria José, chorando. "Tomei uma injeção para aliviar a dor mas ninguém me atendia". No outro dia de manhã, o médico do turno leu o prontuário e resolveu fazer a cesariana. O bebê morreu logo após o parto de infecção generalizada. A direção do hospital disse ao ministro José Serra que todos os procedimentos necessários foram tomados.
Omissão - "O caso dela não se explica só pela falta de integração entre os serviços de obstetrícia do ABC", avaliou o ministro. "Acredito que houve uma clara omissão de socorro". Serra disse querer estimular a população a não aceitar mais "aberrações" como essa.
O presidente do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, Pedro Paulo Monteleone, informou que já foi aberta uma sindicância para investigar o caso. "Tenho certeza que as investigações são bem feitas", disse, respondendo à sugestão do ministro de uma atuação mais dura dos conselhos. Segundo ele, a proposta de integração dos centros obstétricos é "chover no molhado", mas precisa ser feita. "Isso evitaria a perambulação das mulheres, o que, com certeza, complica muitos partos", comentou.


