A volta dos 'zumbis' carnavalescos
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domingo, 03 de março de 2019
Rafael Costa<br> Reportagem Local 
A Zombie Walk, espécie de marcha de pessoas fantasiadas de zumbis que já acontece há dez anos em Curitiba, reuniu mais uma vez entre 25 mil e 30 mil pessoas no centro da cidade neste domingo (3).
Um público principalmente de jovens e famílias se concentrou na Boca Maldita a partir das 11 horas. Muitos pintaram seus rostos por lá. Outros, mais comprometidos com o evento, foram com fantasias e maquiagens sofisticadas, imitando personagens famosos do mundo dos filmes de terror e lançando mão de efeitos visuais realistas, com muito sangue artificial e materiais viscosos. Algumas maquiagens não resistiram ao calor próximo dos 30ºC com o sol a pino. Os donos das melhores fantasias atendiam a um pedido de foto atrás do outro.

A partir das 14h, a marcha percorreu o calçadão da Rua XV de Novembro e fez uma parada na Praça Generoso Marques, onde um grupo apresentou uma coreografia para a canção "Thriller", de Michael Jackson, em frente ao Paço da Liberdade. Em seguida, com "harleiros" de batedores, a multidão seguiu para a Praça Santos Andrade, no Centro, onde fica o prédio histórico da UFPR. Um palco foi montado para shows de bandas de rock locais. O público concentrado na praça foi estimado em 10 mil.
De acordo com Flávia Nogueira, uma das coordenadores do evento, a grande adesão à Zombie Walk em Curitiba tem a ver com uma combinação de fatores - desde a segurança do evento, mais organizado burocraticamente do que em outras cidades, até a onda de filmes e séries sobre zumbis nos últimos anos, passando pelos curitibanos que não gostam do Carnaval tradicional.
"A Zombie Walk começou com pessoas que gostavam de filme de horror e rock. Quando passou para o Carnaval, vários outros grupos foram se juntando, então temos cosplayers, fãs de 'Star Trek', 'Star Wars', 'Harry Potter'. Já somos um evento geek", explicou.

Ela contou que a marcha começou sendo realizada no feriado de Finados, tendo como ponto de partida o Cemitério Municipal de Curitiba, e não emplacou nas primeiras edições. "O pessoal em Curitiba é um pouco conservador e não gostou da ideia de sair do cemitério", contou. "Mudamos aproveitando o movimento do festival Psycho Carnival e essa cultura de rock no Carnaval de Curitiba, e ela começou a crescer. O público foi aumentando exponencialmente, para 600, 1.200 - até nosso primeiro susto, em 2014, quando bateu 20 mil pessoas", conta.
O biólogo Gil Miranda, que mora há sete anos em Santarém (PA), estava em Curitiba para visitar a família e achou que seria uma boa ideia levar as filhas Victoria, 11, e Maia, 8. As meninas já estavam cansadas da marcha, mas se divertiram com as maquiagens mais cedo. "Nós todos sempre piramos em coisas mais 'trevosas'. Ter a oportunidade de se maquiar e ver uma galera vestida diferente é uma oportunidade única", conta Gil, que foi ao evento pela primeira vez.

Também foi a estreia dos curitibanos Pedro Rodrigues, 63, e Geni Casper, 60, que sempre ouviram falar da marcha, mas só neste ano resolveram "dar uma olhada". "É, no mínimo, diferente", disse Pedro, contando ter visto "muita coisa bizarra". Geni disse que se impressionou com a quantidade de famílias. "Achei tudo muito criativo. Estou achando lindas as crianças e as pessoas, muito bem produzidas. Me surpreendi", disse. "É tudo muito bonito, alegre, saudável", avaliou.
Já a estudante de Medicina Ana Carolina, 18, participava caracterizada pela terceira vez. Ela foi com o pai, o professor de Engenharia Cartográfica na UFPR Luiz Veiga, 47. Suas fantasias estavam entre as mais caprichadas. A Branca de Neve zumbi de Ana Carolina mexeu com os sentimentos dos pequenos. "As crianças vinham ou abraçando ou chorando", brincou.
Veiga disse que é "meio nerd velho" e gosta dessas coisas, além de considerar a brincadeira um bom passeio em família. "É divertido. É um momento 'pai e filha' que não tem preço. A Zombie Walk é um evento bastante tranquilo, gostoso de vir para ficar passeando", conta. Eles passaram meses preparando as fantasias aos poucos, aproveitando o know-how dos anos anteriores. "Mas é mais pela diversão", diz Ana Carolina.
Eles vieram acompanhados do também professor da UFPR Paulo Sérgio de Oliveira, 29, recém-chegado do interior de São Paulo a Curitiba. "Lá eu já sabia que tinha esse evento, mas achei um movimento bem característico da identidade de Curitiba um Halloween em oposição ao Carnaval", disse.
O professor Rodrigo de Jesus, 38, de Jaguariaíva, esteve na marcha do ano passado e resolveu participar fantasiado desta vez. Foi de Frankenstein, e fez sucesso. Foram centenas de fotos com o público. "Na verdade, eu não ligo muito para Carnaval. O Zombie Walk me chama mais a atenção. Sou meio tímido, e aqui parece que extravaso de verdade", conta. "É interessante. Tem mais pessoas do que no ano passado. Acho que o pessoal está curtindo mais o Zombie do que o Carnaval propriamente dito."
Rodrigo fez par com o desenhista Edson Luiz Fragoso, 47, que lançou mão de suas habilidades para criar uma fantasia de lobisomem igualmente popular na marcha. "Você vê o empenho do pessoal em fazer uma fantasia melhor a cada ano. É isso que vale a pena - ver a confraternização entre crianças, adultos, idosos, todo mundo na mesma vibe", disse, com cuidado para não perder os caninos postiços.



