A vida no útero
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de setembro de 1999
Por Sharon Begley e William Underhill 
Nova York, 24 (AE-NEWSWEEK) - Cientistas costumavam pensar que enfermidades adultas como diabete, obesidade, problemas cardiovasculares e câncer de mama eram resultado de uma vida pouco saudável ou genes ruins. Não mais. Novas pesquisas impressionantes sugerem que estas doenças podem ter suas raízes antes do nascimento.
Quando John Carter nasceu, há 73 anos, o médico de Ware, um vilarejo ao norte de Londres, não tinha certeza de que o menino sobreviveria: ele pesava apenas 1 quilo e 700 gramas. "Eles me deitaram sobre uma garrafa de água quente, enrolaram-me em um pano de algodão embebido com óleo de fígado de bacalhau e fizeram-me beber conhaque da ponta de uma caneta tinteiro", diz Carter.
"Sobreviver foi quase um milagre". Mas o bebê cresceu, arrumou um emprego em um almoxarifado e sua saúde permaneceu normal - até os seus 50 anos. Foi nesta época que um médico descobriu que Carter tinha pressão altíssima. Outro exame revelou que ele tinha diabete do tipo 2 (desenvolvida na idade adulta).
Carter não tinha razões para suspeitar disso, mas sua doença pode não ter sido causada pelos culpados de sempre: defeitos genéticos, estilo de vida pouco saudável ou substâncias tóxicas do ambiente. Novas pesquisas sugerem que as sementes de sua pressão alta e de sua diabete foram plantadas décadas antes - na época em que ainda vivia no útero de sua mãe.
Cientistas supõem atualmente que as condições durante a gestação, que variam da torrente de hormônios que fluem da Mamãe até quão bem a placenta fornece nutrientes aos minúsculos membros e órgãos, moldam a saúde do adulto em que o feto se transforma.
"Pesquisas recentes", diz Peter Nathanielsz, da Cornell University, cujo novo livro Life in the Womb (A Vida no Útero) explora esta ciência, "fornecem provas convincentes de que a saúde de que gozamos durante nossas vidas é determinada em grande parte pelas condições nas quais nos desenvolvemos, condições que podem programar como nosso fígado, coração, rins e especialmente nosso cérebro irão funcionar". Não é exagero chamar estes resultados de uma revolução em potencial. A descoberta de que as condições no útero influenciam o risco de doenças na vida adulta questiona o quanto os genes contribuem para as doenças (pois o que os cientistas classificam como influência genética pode, em vez disso, refletir condições de gestação) e sugere que doenças desenvolvidas na idade adulta, cuja culpa é há muito tempo atribuída a hábitos perigosos (como alimentar-se de pizza e doces) refletem, na verdade, uma "programação fetal".
"Há dois anos, ninguém pensava nisso", disse Matthew Gillman
da Faculdade de Medicina de Harvard. "Mas o que estamos vendo é nada menos que um novo paradigma para a saúde pública."
O mais impressionante é que as descobertas superam muito o amplo reconhecimento de que as condições durante a gestção moldam a saúde do recém-nascido. Sabemos há bastante tempo que o álcool que chega ao feto pode levar ao retardamento mental e ao desenvolvimento de defeitos cardíacos e que as toxinas do tabaco podem causar infecções de ouvido e do trato respiratório superior. Mas estas substâncias funcionam como uma espécie de veneno. Na maioria dos casos, o resultado é uma criança que, ao nascer ou logo depois, tem problemas detectáveis.
As novas descobertas são dramaticamente diferentes. Em primeiro lugar, as condições de gestação sobre as quais os cientistas estão falando não podem exatamente ser chamadas de tóxicas. São, ao contrário, um modelo de sutilidade. São condições que reprogramam a fisiologia do feto de forma que, por exemplo, o metabolismo da criança (e, mais tarde, o do adulto) transforme praticamente tudo o que ela come em gordura. Esta é a mulher que não precisa se importar em comer as batatas fritas: pode simplesmente injetá-las em seus quadris. Em segundo lugar, ao contrário das influências tóxicas cujos efeitos sobre a criança são imediatamente aparentes, os efeitos da programação fetal frequentemente aparecem décadas depois. A menina gorducha de 4 quilos e meio será perfeitamente saudável por décadas. Mas as mesmas influências que lhe deram as camadas de gordura infantil -"fatores de crescimento" como o estrógeno da Mamãe, que atravessa a placenta - tornam seu tecido mamário suscetível, fazendo com que a exposição ao estrógeno após a puberdade cause o desenvolvimento de um câncer de mama aos 46 anos.
Há uma coisa que as descobertas não mudaram. Mesmo que esteja tentado a culpar a Mamãe por todos os seus problemas ou sentindo-se impotente diante de um destino selado antes mesmo de você dar o primeiro berro, esqueça: seu estilo de vida ainda é importante. Como as condições nas quais o feto se desenvolve influenciam a saúde adulta, descobrir quais são estas condições (com medidas de altura, peso, cintura e tamanho da cabeça ao nascer) ajuda você a saber quais são os riscos adicionais que carrega consigo. E isto sugere formas de evitar que estes riscos se tornem realidade.
Se, quando você nasceu, seu abdômen era muito pequeno, seu fígado pode ser pequeno demais para filtrar o colesterol de sua corrente sanguínea tão bem quanto deveria, e você pode ter um risco maior de ter colesterol elevado ao 50 anos. Então, estude bem aquelas fotos de bebê: se sua barriga era magrinha comparada ao resto de seu corpo rechonchudo, tome cuidado com os níveis de colesterol.
A descoberta da programação fetal poderia nunca ter acontecido se David Barker, da Universidade de Southampton, na Inglaterra, não tivesse reparado, em 1984, em alguns mapas que não pareciam fazer sentido. Eles mostravam estatísticas de saúde de toda a Inglaterra e Gales. Barker viu que a mortalidade neonatal no início do século era alta nas mesmas regiões em que as mortes por doenças cardíacas eram altas. Isso era estranho. Em geral, a mortalidade infantil aumenta em bolsões de pobreza; problemas cardíacos são geralmente relacionados à riqueza (excesso de manteiga, carne e assim por diante). Elas não deveriam ocorrer no mesmo lugar. Barker pensou se a busca pelas causas das doenças cardíacas não deveria começar pelo útero.
Para embarcar em sua investigação, ele precisava de registros de nascimento, muitos deles, de décadas anteriores, para relacionar as condições no início da vida à saúde dos adultos que ele estudaria. Para auxiliá-lo, o Conselho de Pesquisa Médica da Grã-Bretanha contratou um historiador da Universidade de Oxford para vasculhar o país em busca desses registros.
Durante uma caça que durou dois anos, o historiador encontrou registros em arquivos, depósitos, garagens, sótãos e até mesmo porões inundados - mas os melhores documentos estavam em Hertfordshire. Ali, a "inspetora das parteiras" havia registrado o peso de todos os bebês nascidos no vilarejo (incluindo o de John Carter) de 1911 a 1945. Barker tinha seus dados.
Logo depois, Barker e seus colegas tiveram seu momento "eureka!". Ao estudar 13.249 homens nascidos em Hertfordshire e Sheffield, Barker descobriu que um homem que pesasse menos de 2 quilos e 300 gramas ao nascer tinha uma chance 50% maior de morrer de problemas cardíacos do que um homem com um peso mais alto ao nascer, mesmo levando em conta as diferenças sócio-econômicas e outros riscos para o coração.
"Taxas de mortalidade por infarto e doença coronariana tendiam a ser mais altas em homens cujo peso ao nascer era baixo", diz Barker, especialmente quando era baixo comparado à sua altura ou tamanho da cabeça (uma indicação de que o crescimento do bebê havia sido atrofiado). Usando outros registros de nascimento da Índia, Barker encontrou a mesma relação em um estudo de 1996.
Mais uma vez, o peso baixo ao nascer era um presságio de doença coronariana, especialmente entre os homens de meia idade: 11% dos homens entre 42 e 62 anos de idade que pesavam 2 quilos e 300 gramas ou menos ao nascer tinham a doença, comparados a 3% dos nascidos mais gordinhos. A ligação entre o peso baixo ao nascer e as doenças cardiovasculares é atualmente uma das mais fortes em todo o campo da programação fetal, mantendo seu padrão em todos os continentes e em ambos os sexos. Pesquisadores supervisionados por Janet Rich-Edwards, de Harvard, relataram em 1997 que, entre 70.297 mulheres estudadas, as nascidas com menos de 2 quilos e 300 gramas tinham um risco 23% maior de desenvolver doenças cardiovasculares do que as mulheres nascidas com mais peso.
Mas não é o tamanho pequeno em si que causa a doença cardíaca décadas depois. O que parece ocorrer é que as mesmas condições pouco favoráveis no útero que retardam o crescimento do bebê também provocam fatores de risco que levam à doença cardíaca.
"O peso ao nascer representa algo", diz Janet. "É um sinal de um conjunto complexo de fatores que influenciam tanto o crescimento no útero quanto a suscetibilidade a doenças posteriores". Os cientistas têm algumas suspeitas. Nathanielsz sugere que pode ser algo tão simples quanto ter rins menores do que a média: estes órgãos ajudam a regular a pressão sanguínea, mas se não conseguirem cumprir sua tarefa, o resultado pode ser a hipertensão, uma das principais causas de doenças cardíacas.
Ou, estudos de animais demonstram que, se um feto não recebe uma quantidade adequada de proteína, uma enzima na placenta perde sua eficácia e não consegue mais neutralizar hormônios prejudiciais que tentam atingir o feto. Um deste hormônios é o cortisol. O cortisol aumenta a pressão sanguínea, como percebemos a cada vez que o estresse faz nossas veias incharem.
No feto, o cortisol parece elevar o nível padrão da pressão -irreversivelmente. "Estamos falando de estabelecer padrões do sistema para sempre", diz Jonathan Seckl, da Universidade de Edinburgo. As descobertas estão atraindo multidões de cientistas entusiasmados.
Há um ano, a Sociedade de Pesquisas Epidemiológicas não chegou a ocupar nem a metade das cadeiras de uma sala pequena em sua reunião anual sobre programação fetal. Na última primavera, o mesmo assunto lotou um auditório inteiro. "Este assunto está pegando fogo", diz Janet. O aumento vertiginoso no interesse reflete a lista cada vez mais longa de doenças que os cientistas estão rastreando até a época da gestação. Os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) realizaram um congresso em janeiro sobre a ligação entre as condições no útero e o câncer de mama; em setembro, outra reunião dos NIH examinou a ligação com as doenças cardiovasculares, renais e outras. Um congresso em Harvard explorará o assunto em novembro.
A ligação com o câncer de mama é uma das mais surpreendentes. A própria existência da doença é ruim o suficiente. O que aterroriza as mulheres é que ele atinge muitas mulheres que não têm fatores de riscos conhecidos - como idade, parentes próximas que tiveram a doença ou não ter tido filhos antes dos 30 anos de idade. Karin Michels, da Faculdade de Saúde Pública de Harvard identificou uma causa ignorada. Depois de coletar dados de dezenas de milhares de enfermeiras, Karin e seus colegas relataram em 1997 que mulheres que haviam nascido com cerca de 2 quilos e 300 gramas tinham metade do risco de desenvolver câncer de mama dos que mulheres que haviam nascido com cerca de 4 quilos e meio.
Isto era especialmente verdadeiro nos casos de câncer de mama em mulheres de 50 anos ou menos. "Há cada vez mais evidências"
diz Karin, "de que o câncer de mama pode ter sua origem antes do nascimento". Um peso muito alto ao nascer pode ser um sinal de influências uterinas que tornam o tecido mamário "suscetível" ao câncer. Fatores de crescimento, justificando seu nome, fazem com que um feto fique maior.
Estes fatores incluem a insulina, a leptina e o estrógeno. Se a mãe tem altos níveis destas substâncias (ser obesa eleva os níveis de estrógeno, por exemplo), e se elas chegam ao feto, os hormônios podem fazer mais do que simplesmente agir como os fertilizantes nos tomates do quintal: podem alterar o tecido mamário nascente de forma que ele reaja ao estrógeno durante a puberdade tornando-se maligno. Isto não é motivo para você deixar sua menina em jejum durante a gravidez - o crescimento fetal atrofiado traz outros problemas. Mas sugere que, se você era um bebê fofinho demais, deve ser ainda mais vigilante em seus exames de mama.
A mesma mensagem emerge das outras ligações que os cientistas estão descobrindo. O peso e outros traços na época do nascimento podem oferecer um mapa de onde suas minas terrestres estão enterradas em seu corpo: -Colesterol: quanto menor o abdômen do recém-nascido, maior o nível de colesterol na idade adulta.
O que pode acontecer é que, se a mãe for mal nutrida ou um problema na placenta impedir que o feto receba nutrição adequada
o feto muda para o modo de emergência: desvia sangue para o cérebro, o órgão mais vital, às custas dos órgãos abdominais.
Eles incluem o fígado, que desempenha um papel-chave no controle dos níveis de colesterol. Um fígado muito pequeno não consegue filtrar o colesterol tão bem quanto um mais robusto. Isto sugere uma resposta para o enigma de como algumas pessoas podem ter dietas ricas em gorduras e colesterol impunemente: estes sortudos foram programados quando ainda eram fetos para processar a gordura e o colesterol tão eficientemente quanto uma estação de tratamento de esgotos. Os outros têm estações de tratamento mais falhas. "Quando um feto adapta-se às condições no útero", diz Barker, de Southampton, "a adaptação tende a ser permanente".
Obesidade: este foi o primeiro traço suspeito de refletir a vida no útero. Durante a 2ª. Guerra Mundial, os nazistas tentaram impedir que a população do oeste da Holanda recebesse comida entre setembro de 1944 e maio de 1945. Homens que estavam sendo gestados durante o período todo ou parte dele mostraram um padrão revelador. Se suas mães passaram fome durante o primeiro trimestre -no caso de homens concebidos entre março e maio de 1945- mas comeram adequadamente depois, os homens nasceram mais pesados, mais altos e com cabeças maiores do que os bebês gestados em períodos normais. Quando adultos, eles tinham uma probabilidade maior de ser obesos. Se suas mães passaram fome apenas no último trimestre -se os meninos nasceram em novembro de 1944, por exemplo- os homens geralmente permaneceram esbeltos.
O que pode acontecer é o seguinte: se a comida é escassa durante o primeiro trimestre, o feto desenvolve o chamado fenótipo poupador. Seu metabolismo é regulado para que toda e qualquer caloria disponível seja armazenada. Ou a disponibilidade ou escassez de comida pode afetar os centros de apetite no cérebro do feto. Neste caso, a subnutrição no ínicio da vida fetal poderia configurar os controladores de apetite na opção seguinte: "coma tudo o que estiver na sua frente, você nunca sabe quando vai faltar comida". Uma abundância de comida no ínicio da gestação mantém o ponteiro no modo "desnecessário ser guloso".
Fetos subnutridos mais tarde na gestação podem desenvolver menos células de gordura (é nos últimos meses que a maioria das células são acrescentadas). Isto faz com que seja mais difícil que fiquem gordos depois do nascimento.
Diabete: Ser magro ao nascer põe um indivíduo em alto risco de desenvolver diabete na meia idade, afirma David Leon, da Faculdade de Higiene e Medicina Tropical de Londres. O efeito é poderoso: a diabete é três vezes mais comum em homens de 60 anos de idade que, quando recém-nascidos, estavam entre o quinto menos rechonchudo da escala (tecnicamente, é o peso dividido pela altura ao cubo) do que em bebês mais gordinhos.
"Uma explicação é que a nutrição inadequada programa o feto para desenvolver um metabolismo econômico", diz Leon. "Isso inclui a resistência à insulina, para que o corpo guarde e mantenha os depósitos existentes de glicose". Quando este metabolismo encontra-se com doces e hambúrgueres, por exemplo, o corpo sofre uma inundação de glicose e se torna diabético.
Mas a diabete é um exemplo perfeito de como a vida no útero não é uma sentença irrevogável. Apesar da magreza no nascimento aumentar o risco de desenvolvimento de diabete na meia idade, diz Leon, esse risco é muito reduzido se você permanecer magro.
Cérebro: as pesquisas sobre como a vida no útero influencia o cérebro estão apenas começando. Mas já há indicações, tanto de pesquisas com humanos quanto com animais, de que alguma coisa vai acontecer. Em um texto de 1997, biólogos relataram um estudo de pessoas com assimetrias nos pés, dedos, orelhas e cotovelos.
O QI era mais baixo em pessoas assimétricas na mesma proporção (percentualmente) em que suas medidas desviavam-se da simetria perfeita. Provavelmente, algum tipo de estresse durante o desenvolvimento fetal causa assimetrias, sugere Randy Thornhill, da Universidade do Novo México. O mesmo estresse pode causar imperfeições no sistema nervoso em desenvolvimento, produzindo a neurônios menos eficientes para sentir, lembrar e pensar.
Aqui também a assimetria é um sinal de que alguma coisa está errada no útero. Thornhill estima que algo entre 17% e 50% das diferenças de QI refletem condições de gestação.
A nova ciência da programação fetal sugere que nós podemos ter exagerado ao atribuir traços aos genes. "A programação", conclui Nathanielsz, "é igualmente ou mais importante do que nossos genes na determinação de qual será nosso desempenho físico e mental".
Considere uma das formas padrão pelas quais nossos cientistas avaliam o quanto um traço reflete influências genéticas e quanto reflete o ambiente: eles comparam gêmeos. Se gêmeos idênticos compartilham um traço mais do que outros irmãos, o traço é considerado em grande parte como estando sob o controle da genética. Mas gêmeos compartilham outra coisa além dos genes: um útero. Parte da coincidência atribuída a genes compartilhados pode, na verdade, refletir um ambiente uterino compartilhado.
O útero pode ter outro efeito. Simplesmente ter um gene não é suficiente para manifestar o traço associado. Os genes precisam ser "ligados" para exercer um efeito, se não, permanecem em silêncio -assim como ter uma coleção de CDs não significa que sua casa está sempre cheia de música, a menos que você os ponha para tocar. No útero, uma inundação de hormônios de estresse pode chegar a desligar genes associados à reação ao estresse; a reação torna-se menos eficiente, o que é o mesmo que dizer que esta criança corre o risco de se tornar um adulto que não consegue lidar com o estresse. "O roteiro escrito no gênesis é alterado pelo ... ambiente no útero", diz Nathanielsz.
Conforme a programação fetal for mais compreendida, pode até ressuscitar uma teoria desbancada há muito tempo, conhecida como lamarckismo. Esta idéia defende que traços adquiridos por um organismo durante sua vida podem ser transmitidos a seus filhos -que se uma mulher passa os 10 anos anteriores à sua gravidez em uma academia de ginástica fazendo musculação, seu filho sairá de sua barriga pronto para levantar pesos. A genética moderna mostrou que a herança não funciona assim. Mas, segundo a programação fetal, alguns traços adquiridos pela mãe podem de fato ser herdados por seu filho. Se ela se tornar diabética, inunda seu filho de glicose; ondas de glicose podem sobrecarregar o pâncreas em desenvolvimento, fazendo com que as células fetais que secretam insulina fiquem exaustas. Como resultado, a criança também se torna diabética na idade adulta. Quando esta criança ficar grávida, também irá inundar seu feto de glicose, sobrecarregando seu pâncreas e criando uma tendência para a diabete do tipo 2. Este bebê será diabético por causa de algo que aconteceu duas gerações antes: um tipo de "efeito vovó".
Em seu Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley descreve como os funcionários da Chocadeira Central de Londres, onde fetos crescem em caldos especiais, ajustam os ingredientes do líquido amniótico dependendo do tipo de criança que precisam. Crianças destinadas a trabalhar em fábricas de substâncias químicas são tratadas para tolerar chumbo e cádmio; as destinadas a pilotar foguetes ficam girando constantemente para aprenderem a gostar de ficar de ponta-cabeça. A busca pelos segredos da programação fetal não produzirá receitas tão simples. Mas já está mostrando que as sementes da saúde são plantadas antes mesmo de você respirar e que os rápidos nove meses de sua vida no útero moldam a saúde de sua vida inteira.


