Já aprendi que todos somos igualmente importantes e interdependentes. Também aprendi que a melhor forma de proteger as nossas crianças e adolescentes é apoiando, orientando e promovendo suas famílias.
  Nós somos o quê sabemos ser. Todos somos educadores, aprendemos uns com os outros e a melhor forma de aprender é através da vivência. O humano adulto, via de regra, reflete os registros internalizados em seu ser desde a vida intra-uterina, infância, adolescência, até a prática de sua ação.
  A saúde do sistema familiar, onde cada um cumpre o seu papel é a fonte mais eficaz para a construção de uma sociedade mais equilibrada.
Sensibilizada, observo a direção que o Brasil está pretendendo tomar. Querem reduzir a idade do humano em desenvolvimento para fins de imputabilidade penal.
  Se somos o quê sabemos ser, será que o aprendizado da exclusão e o da convivência com outras pessoas que ainda não aprenderam a viver adequadamente em sociedade é o caminho?  Os defensores dessa idéia não se questionam que esses coexistentes vão retornar ao convívio social com um aprendizado bem superior ao que ingressam no presídio? Será que esse aprendizado interessa à humanidade? Será que ele ensina a ser melhor? O sistema penitenciário brasileiro tem cumprido a sua função? Já imaginaram o seu filho com dezesseis anos dentro de uma prisão partilhando do aprendizado de pessoas que ainda não foram capacitadas ao convívio social adequado?
  Sair do ilusório e cair na real é preciso. Já é tempo de se perceber que os maiores educadores, os responsáveis pela formação da ética humana, OS PAIS, não têm merecido a atenção necessária para que possam exercer satisfatoriamente essa missão.
  Por quê será que é necessário tantos anos de estudo para o exercício de muitas profissões, inscrição em entidades de classe, e para o formador da ética humana nada se exige? Será que ele já sabe tudo?
  O engenheiro, o médico, o advogado, o cirurgião-dentista, o psicólogo, o assistente social e muitas outras profissões exigem muitos anos de aprendizado para o exercício profissional. Entretanto, não vejo a preocupação de se adequar os currículos das Universidades, no sentido de saber ser e estar com o outro, nova diretriz da política educacional. Ainda não vi um arquiteto que projeta o espaço físico do movimento de uma família, nem um médico de família, estudar relações humanas com enfoque familiar Também não vi nenhum outro profissional sair da Universidade preparado para ser um bom pai e uma boa mãe. Será que quem sai da Universidade sabe as fases do desenvolvimento humano?
  Conviver é preciso, mas aperfeiçoar a pesquisa e o aprendizado de como melhorar as relações humanas é fundamental.
  Ainda aprendi muito pouco, mas gostaria antes de me ir, sentir que os humanos já voltaram para si, e que tenham inserido dentro de todas as casas de ensino, iniciando com creches em todas as escolas públicas, laboratório de estudos de relações humanas e familiares, dentro do enfoque sistêmico, pois todos somos interdependentes e fazemos parte de um macro sistema, da mesma malha social cuja fiação deve ser espessa e bem trabalhada para que possamos Ter segurança.
  Assim, tenho que, antes de se propor a redução da idade para fins de imputabilidade penal devemos articular a criação de mecanismos para que os formadores da ética humana, os pais sejam capacitados para o cumprimento dessa missão. Afinal, a primeira leitura do mundo, os primeiros registros que vão direcionar a ação do sujeito não estão sob responsabilidade desses educadores cuja capacitação nunca se exigiu? E para aqueles que já estão exercendo esse mister sem conhecer nem as fase do desenvolvimento humano, seria interessante ações no sentido de que criar mecanismo de reflexão comunitária, em todas as escolas públicas e em todos os segmentos da sociedade civil organizada, visando a interação e troca de experiência de como melhorar essas relações do sistema familiar e comunitário. Um bom programa de apoio, de orientação e promoção da família, em todos os municípios brasileiros, com o pesar municipal, regional, estadual e nacional da família com as famílias, é urgente para o combate das patologias sociais, pois somos o quê sabemos ser.
Terezinha Ribeiro Ruzzon é juiza de Direito, presidente da Associação de Magistrados e Promotores de Justiça da Infância, Juventude e Família do Paraná e Conselheira Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente.

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