Quanto mais chover neste início de primavera, mais o Consórcio Cruzeiro do Sul, formado pela Copel e pela Eletrosul, ficará próximo de gerar eletricidade com as águas do Rio Tibagi, na região Centro Oriental do Estado.
Até o final da tarde de sexta-feira, dia 21, o reservatório da Usina Hidrelétrica de Mauá, que retém o fluxo do rio entre os municípios de Telêmaco Borba e Ortigueira, marcava a chamada cota 624,5, um metro e meio a menos do que o necessário para que o Tibagi gere eletricidade pela primeira vez. A cota é um índice calculado com base na altitude do lago em relação ao nível do mar. ''Temos um motivo a mais para gostar dessa chuva toda'', comemorava na sexta-feira o superintendente do consórcio, Sérgio Luiz Lamy.
Os pingos do último dia do inverno viraram destaque na grande obra, a maior do interior do Estado neste início de década. Só eles faziam ruído num canteiro silenciado, à espera de uma grande faxina, depois de quatro anos de construção, onde trabalharam até duas mil pessoas simultaneamente. ''Não fosse esse longo período de estiagem, já teríamos atingido a cota durante o inverno e provavelmente o início da operação já teria ocorrido'', avalia Lamy.
É com a água que cai do céu sobre o leito do Tibagi da nascente até a represa que o consórcio conta para começar a fazer a última fase de testes nos dois pontos de geração de energia do complexo (ver infográfico).
De acordo com Lamy, a expectativa é que no final de outubro um dos três geradores da casa de força principal já entre em operação. Se tudo correr bem, os cinco geradores da unidade estarão funcionando em janeiro, um mês depois da previsão de inauguração.
Mauá - que recebe o nome em referência a um salto do rio - vai gerar 361 megawatts, 350 das três turbinas da usina principal e 11 da usina complementar - energia suficiente para abastecer um milhão de consumidores residenciais ou um volume que daria para atender com sobras o parque fabril da Klabin, a maior empresa da região de Telêmaco Borba. Da subestação de Mauá saem três linhas de transmissão, com ligações a outras subestações para Figueira, para Jaguariaíva e Telêmaco Borba.
O lago, que começou a ser formado no final de junho, alagou 84 quilômetros quadrados de área, desalojando 140 famílias de agricultores, reassentados com recursos do consórcio em lotes de, no mínimo, 10 alqueires.
A indenização aos agricultores é só uma parte das compensações. Há investimentos em oito comunidades indígenas que vivem próximas ao rio. O consórcio formado pela Copel e pela Eletrosul também terá que recompor a vegetação em uma faixa de 100 metros da margem do lago.
Segundo o consórcio, foram plantadas mudas nativas produzidas no próprio canteiro.
Por força da legislação, o consórcio implantou o Projeto Básico Ambiental (PBA), que inclui 34 programas de redução de impacto. Com isso, o Tibagi vai ser estudado permanentemente nos próximos anos, em áreas tão diversas quanto meteorologia, geologia, arqueologia e de qualidade e vazão da água.
''Com a barragem, a água que chega ao Norte do Estado estará mais limpa. A usina vai funcionar como um filtro'', garante Lamy. ''As cidades que usam o rio como manancial vão ter uma água melhor em relação a que tinham antes da formação do lago.'' Está previsto ainda um programa de eliminação do fosfato, um dos maiores poluentes do rio, da água do reservatório.
Quanto à vazão, o engenheiro civil da Copel, Osvaldo Albuquerque, assegura que os últimos monitoramentos revelam uma situação confortável. ''Temos a maior vazão dos últimos 10 mil anos. Não há motivo para se preocupar com o nível do rio depois da barragem.''
O consórcio já adquiriu cerca de 4,2 mil hectares no município de Ortigueira, em ponto jusante à barragem, para a formação de uma unidade de conservação também para reduzir o impacto ambiental da área.
Uma equipe de biólogos fez o trabalho de abrigar os animais em área segura antes do lago começar a encher. O consórcio informou que o trabalho envolveu a remoção dos animais que se locomovem mais lentamente. As condições de saúde deles eram avaliadas. Em caso de doença, eram tratados para então serem soltos no habitat.
Albuquerque explica que o trabalho foi facilitado com o desvio do leito do rio por meio de dois grandes túneis. Com o terreno seco, os operários fizeram a limpeza do terreno onde foi construída a barragem, de 80 metros de altura e 730 metros de extensão.
A Copel já está em fase de estudos para instalar a segunda usina no Tibagi. A unidade, que será menor que Mauá, também deverá ser construída na região. A tendência é de que o canteiro da obra seja montado em Telêmaco Borba.

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