A solidão da mulher negra em debate
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segunda-feira, 27 de maio de 2019
Isabela Fleischmann - Grupo Folha 

Larissa Barros, da Comissão de Promoção de Igualdade Racial e das Minorias da OAB: falta de representatividade
Fortes, guerreiras e que tudo suportam. A mulher negra é de fato uma lutadora. Mas outra realidade que foi chamada a atenção durante a roda de conversa realizada no fim de semana, em Londrina, é a solidão imposta a elas. São fortes, sim. Mas é preciso falar do custo psicológico que essa resistência diária demanda.
Segundo o Censo de 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais da metade das mulheres pretas são solteiras. O estigma da cor, do gênero e da classe social leva muitas mulheres negras para a mesma situação: mães e sozinhas, como explica Claudia Iyá Ikandayô, 46. Mãe solteira de três filhos há 14 anos, ela conta que teve de “se despir da vaidade para entrar na guerra”. Ela foi uma das participantes do evento realizado no sábado (25), com o auditório da prefeitura municipal - que comporta 100 pessoas - praticamente cheio.
A psicóloga Roseane Teodoro, que faz parte do Conselho Municipal da Promoção da Igualdade Racial de Cambé (Região Metropolitana de Londrina), alerta que o território racista atravessa a mulher negra o tempo inteiro, seja de forma consciente ou inconsciente. “Tomamos tapas, mas não caímos. Isso não quer dizer que não sangrou ou não está doendo. Sou guerreira porque o sistema me obriga a ser”.
Ao pegar o microfone para compartilhar sua experiência, catártica para o grupo que atentamente a ouvia, Ikadayô pontuou que a sociedade desconhece a realidade das casas de mulheres negras. “Somos maltratadas. O corpo da mulher preta é objeto de escárnio sexual. Para andar de mão dada na rua, a sociedade quer uma mulher branca de olho azul”. Elas ainda têm que correr atrás quando já se deveria falar em pé de igualdade. “Eu não sou tímida. Eu fui silenciada”, afirmou, emocionada, Lucielly Santos, 29, mestranda de psicologia pela UEL (Universidade Estadual de Londrina).

Márcia de Farias trabalha como moto-Uber. É mãe solteira e sofreu por um longo tempo com racismo por parte da família do ex-esposo branco. “Pelo teu filho você tem muita força. Temos que ser fortes. Ser mãe solteira é horrível. Mas vale a pena”.
Na saída do auditório, materiais para arrumar o cabelo e amarrar turbantes, valorizando a estética da mulher negra. Janaína Batista Silva, 26, é formada em pedagogia. Ela lembra que frequentou um psicólogo branco que dizia que ela tinha se de vestir bem. Mas ela se vestia. Só não segundo o padrão estético europeu. “O povo preto sempre lutou. É o meu cabelo, meu nariz largo, meu lábio grosso, tem todo um significado. Busco força em tudo isso que me significa”.

Márcia de Farias e Pedro Henrique: "Pelo teu filho você tem muita força. Temos que ser fortes. Ser mãe solteira é horrível. Mas vale a pena”
Se sentir à vontade para expressar suas ideias em público é também uma questão de gênero e racial, como lembrou a advogada criminalista e integrante da Comissão de Promoção de Igualdade Racial e das Minorias da OAB (Ordem dos Advogados) de Londrina, Larissa Ferraz de Barros. Ela conta que se veste de uma maneira formal para que a vejam como advogada. Ainda assim, disse ter sido confundida no mercado, como a secretária da filha de uma senhora branca.
Já houve quem conversou com Teodoro e ao encontrá-la pessoalmente duvidar se de fato é ela, a psicóloga, uma mulher negra. Situação similar a da advogada Ana Paula Lucena. Por diversas vezes, ao tomar locais específicos para advogados, foi questionada sobre sua carteira da OAB. “Desacreditam da nossa capacidade", conta.

A advogada Ana Paula Lucena: "Desacreditam da nossa capacidade"
No telão, Barros pontuava para a turma de mulheres a falta de representatividade da mulher negra. Ela alega que mulheres negras são desprezadas porque o racismo está impregnado nos homens. “Nos casamentos inter-raciais, os homens negros escolhem mulheres brancas. Isso está relacionado aos lugares de acesso, o homem negro se vê incluído com a mulher branca”, conta. Por outro lado, a mulher negra é vista como objeto sexual, segundo a advogada.
Santos conta que sua mãe tem 67 anos e a criou com outros três filhos sozinha. Hoje, sua mãe tem Alzheimer. “Eu encorajo a todas a falarem o que está dentro, o que dói. Porque se não falar, vira doença”, diz. O que dói é também o que as une. Trata-se da “dororidade”, como contou Barros, ao explicar um conceito de sororidade feminina negra.
Sua referência literária é o livro de Vilma Piedade. “Dororidade tem a ver com a dor, o sofrimento físico, moral e emocional que as negras têm. Dororidade contém o vazio, a ausência, a fala silenciada e a dor causada pelo racismo. Essa dor é preta”. A sororidade, conceito novo sobre união de mulheres, não basta para mulheres negras. “Enquanto as brancas queriam direitos iguais de trabalho, as mulheres negras já trabalhavam há anos. Antes de pensarmos em outros direitos como a legalização do aborto, nós, mulheres negras temos que nos manter vivas.”
REINVENTAR COLETIVO
Mulher preta, advogada em área predominantemente masculina, Barros afirma: “Eu quero ficar nesse lugar”. Atuante no 3º distrito policial, na zona oeste, onde ficam detidas as mulheres, Barros contou da fragilidade em que elas são encontradas. Na população carcerária, as negras são 62% no País, de acordo com o Infopen (Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias). “Muitas vezes são abandonadas pelos companheiros e pela família. Quando a agente penitenciária fala que elas têm visita, elas se arrumam, ficam emocionadas.”
O sucesso profissional de Barros e da cabeleireira Ana Paula da Silva, dona do salão Wana Black Hair, em Cambé, é também uma ferramenta de militância. Um reinventar coletivo: mulheres negras lutando juntas.
A mãe de Silva era empregada doméstica. Além de Ana Paula, 13 filhos. Foi trabalhar e a levou junto, quando criança. Ela lembra que a casa onde sua mãe trabalhava tinha três crianças, mas a patroa não permitia que ela brincasse com eles. Ficava, então, com sua mãe na cozinha. E assim foi até a levarem para um orfanato. Estudou somente até a 8ª série e parou por conta da gravidez. Concluiu, recentemente, a educação supletiva, e agora tenta passar no vestibular. “Tenho essa dor dentro de mim, mas não gosto de tristeza, gosto de alegria. Fecho meu salão por uma negra. Quero cuidar da mulher negra. Você me ajuda na minha solidão e eu vou te ajudar na sua”.



