A segunda morte do general de Gaulle Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 14 (AE) - Mais uma vez a França está seguindo um caminho extravagante em relação ao resto da Europa: em quase toda parte os socialistas no poder estão sendo violentamente atacados enquanto a direita regressa galopante. Na França acontece o contrário: nos três últimos anos acelera-se a decadência da direita enquanto que, pelo contrário, longe de estar desgastada, a equipe socialista, em dois anos, reluz como se fosse o sol.
Mas esse fenômeno, já estranho, disfarça outro, mais fundamental: as eleições européias poderiam comemorar "a segunda morte do general de Gaulle".
Recordemos a equação: teoricamente o gaullismo continua reinando na França, já que o presidente da República, Jacques Chirac, afirma ser seu representante. O que também faz o partido de Chirac, o RPR, que até ontem foi, e de longe, o principal da direita francesa.
E o que foi que aconteceu ontem? O partido de Chirac, RPR gaullista, encabeçado por seu líder, Nicolas Sarkozy, que recebeu o beneplácito de Chirac, caiu no fundo do poço. Em vez de colher 20 por cento dos votos a lista de Nicolas Sarkozy só reuniu menos de 13 por cento, uma catástrofe sem precedentes, momento histórico para uma agremiação que pretende representar o general de Gaulle. Um fato a ser inscrito nos anais do Livro Guiness de Recordes!
Porém as coisas ainda são piores: há algumas semanas um gaullista "histórico", o velho Charles Pasqua, rompeu com Chirac, pretextando que o atual gaullismo, o de Chirac, virou as costas ao gaullismo verdadeiro. Porém esse Charles Pasqua agindo quase sozinho, com o apoio apenas de um deputado da direita, Philippe de Villiers, sem recursos, sem militantes, sem partido gaullista oficial, conseguiu mais de 13 porcento de votos.
Encontramo-nos, portanto, diante do seguinte esquema: o herdeiro oficial de de Gaulle, Jacques Chirac, e seu partido, o RPR, estão se afogando. Em contraposição o "dissidente" do gaullismo, Charles Pasqua, que se separou de Chirac por fidelidade ao general de Gaulle, domina os gaullistas de Chirac.
Por que Charles Pasqua, o resmungão, a memória e o vestal do gaullismo, rompeu com o presidente Chirac e o RPR, há algumas semanas? Pasqua, simplesmente, não reconhece mais o gaullismo lendário e lírico no grupo dos que pretendem estar com a herança do general. Este retirou a França da Otan, enquanto que Chirac não apenas a reintegrou na organização, como também demonstrou ser o soldado disciplinado dos norte-americanos em Kosovo.
Outra dissenção: de Gaulle rejeitava uma federação ou confederação européia, desconfiando da União Européia como se fosse pestilenta, enquanto que Chirac e os gaullistas do RPR são entusiastas de Bruxelas, do euro, aceitando - segundo afirma Pasqua - o desaparecimento da nação francesa.
Última causa do rompimento: o general era um planejador na economia, um antiliberal, enquanto que Chirac e Sarkozy são mais tatcherianos.
Eis porque Pasqua, o detentor da verdadeira cruz gaullista, ultrapassou os gaullistas ortodoxos nas eleições européias.
Há quem diga que se sofreu um golpe mortal o gaullismo, tal como compreendido por Chirac e o RPR, não chegou a morrer. Ele deverá ressurgir, metamorfoseado sob a batuta do dissidente Pasqua. No entanto, Pasqua é um homem idoso. Ele, sem dúvida, mantém-se brilhante e combativo. Afirma que pretende criar um novo partido para salvar o ideal gaullista. Mas, em sua idade e cercado como está de homens da direita algo pálidos e de homens da esquerda desgarrados, parece-nos difícil vê-lo realizar sua tarefa de promover a ressurreição do gaullismo. É por isso que, tristes mas não iludidos, tememos que o dia de ontem marcou a "segunda morte do general".





