A salvação a mil quilômetros de casa
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terça-feira, 11 de novembro de 2003
Andréa Bordinhão<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Mil quilômetros. Essa é a distância que separa a recém-nascida Letícia Laudino e a doadora de sangue que salvou sua vida. No último dia 18 de outubro, quando Letícia nasceu, sua mãe, Débora Laudino, 22 anos, e os médicos tiveram uma surpresa: o fato de Débora possuir sangue com fator RH nulo e em função de uma transfusão de sangue que fez quando criança ter criado anticorpos (proteção) contra os outros dois fatores (negativo e positivo) gerou uma incompatibilidade entre o sangue da mãe e da filha, levando Letícia a uma crise hemolítica (espécie de doença do sangue). Caso a recém-nascida não recebesse a transfusão com o tipo sanguíneo da mãe, poderia morrer em 72 horas.
A salvação de Letícia veio do Rio de Janeiro. Depois de uma intensa pesquisa em diversos bancos de sangue de todo o País, o Centro de Hematologia e Hemoterapia do Paraná (Hemepar) encontrou uma doadora compatível em Nova Iguaçu, cidade da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. A busca começou três dias depois que a criança nasceu, quando constatou-se que nenhum parente de Débora poderia ser doador.
Com o auxílio de uma companhia aérea, o sangue chegou a tempo em Curitiba, no dia 26 de outubro. ''Nunca poderia imaginar que iria enfrentar um problema desses no nascimento da minha filha. Como eu fiz a transfusão sanguínea, que gerou o problema, com oito anos de idade, nem lembrei de contar à minha médica'', afirma Débora.
Segundo a chefe de divisão do Hemepar, Anália Machado, o caso de Débora e Letícia é tão raro que as chances de acontecer são de uma em 6 milhões. Essa incompatibilidade é a mesma que pode acontecer em crianças que nascem com RH positivo, mas a mãe é fator negativo e não tomou as devidas precauções (uma vacina é a solução, no caso).
Contudo, a dificuldade no caso de Letícia foi justamente o doador. No Brasil, há apenas duas pessoas cadastradas nos hemobancos com sangue fator RH nulo. Caso não se achasse um doador, a última opção seria a irmã de 10 anos de Débora. ''O sangue da tia do neném era compatível, porém ela é muito pequena para se tirar sangue. Só se não houvese mesmo outra opção'', explica Anália. Letícia, depois de duas transfusões, foi para casa no dia 1º de novembro e passa bem.


