WASHINGTON (AE-NEWSWEEK) - A economia dos Estados Unidos continua a expandir-se, desmentindo - até agora - as previsões de que ia desacelerar-se ou entrar em colapso. No último trimestre de 1998, a produção (o Produto Interno Bruto) cresceu a um assombroso índice anual de 5,6%, muito mais rapidamente do que a maioria dos economistas havia previsto. Parecemos ter criado um aparelho de movimento perpétuo, mas por trás desse desempenho notável existe um fenômeno desconcertante: o virtual desaparecimento da poupança pessoal.
As estatísticas oficiais sobre poupança já não são segredo. Em 1998, o índice de poupança pessoal dos americanos caiu para o mais baixo nível do período posterior à 2ª Guerra Mundial: 0,5% da renda disponível.
Gastamos 99,5% da renda que nos fica após abatidos os impostos. O evidente paradoxo é que, embora estejamos poupando menos que nunca, sentimo-nos - em consequência do mercado acionário - mais ricos que nunca.
Quem duvidar que a redução do índice de poupança tenha impulsionado o boom econômico precisa fazer algumas contas. Em 1998, a renda dos americanos depois de abatidos os impostos totalizou cerca de US$ 6 trilhões. O índice de poupança pessoal em 1997 foi de 2,1% da renda; portanto a queda para 0,5% representa declínio de 1,6 ponto porcentual.
Calculado sobre US$ 6 trilhões, isso corresponde a quase US$ 100 bilhões de gastos extras.
Quer dizer, na prática, que os americanos gastaram outros US$ 100 bilhões em computadores, férias, carros e brinquedos, entre outras coisas. Por sua vez, as maciças compras dos consumidores estimularam o investimento empresarial. Essas duas linhas de gastos impulsionaram a expansão econômica e neutralizaram o entrave do cada vez maior déficit comercial (em 1998 ele subiu para 1,4% do PIB). A despoupança dos consumidores americanos preservou a economia americana e - por meio de mais importações - ajudou a combalida economia global.
Mas isso pode continuar? A queda enorme da poupança pessoal surpreendeu economistas e provoca intenso debate. Se a situação não perdurar, as perspectivas para as economias dos EUA e do resto do mundo vão piorar. Examinemos o debate.
A opinião predominante afirma que, a um primeiro exame, a menor poupança faz sentido e não precisa mudar logo. Para entender por quê, basta olhar a tabela abaixo. Ela foi adaptada de um estudo ("There Is No Savings Crisis" - Não há Crise de Poupança) escrito pelo economista Richard Rippe, da Prudential Securities. A tabela mostra o vasto aumento da riqueza do setor familiar (incluindo as organizações sem fins lucrativos). Desde 1987, os bens líquidos dos americanos (ativos menos passivos) praticamente dobraram, para cerca de US$ 35 trilhões.
Maior número de bens tangíveis (casas, carros, móveis) é responsável por certo aumento. Mas os bens financeiros (dinheiro, contas bancárias, ações, bônus) correspondem à maior parte do aumento; deste, talvez US$ 8 trilhões estejam aplicados em ações.
O argumento de Rippe não é simplesmente o de que os americanos, tendo ganhado tanto no arriscado jogo do mercado acionário, tenham o direito de ostentar riqueza. A lógica é mais sutil. Conforme ele destaca, a poupança pessoal corresponde apenas a uma parcela da poupança nacional.
As empresas fazem a maior parte da poupança nacional por meio da retenção de lucros e da depreciação (do custo representado pela substituição de investimentos de capital obsoletos).
E a poupança das empresas aumentou. Mas as empresas pertencem a acionistas: pessoas físicas, fundos de pensão, fundos mútuos. Se as companhias poupam e investem com prudência, seus lucros e o preço de suas ações aumentam. Que há de errado com pessoas (os verdadeiros proprietários) que lançam mão de uma pequena parcela dos ganhos e com isso aumentam os gastos?
Parece que nada, quando as companhias poupam, investem e conseguem grande crescimento dos lucros. O paradoxo da menor poupança e da maior riqueza está solucionado. As pessoas continuam adotando o ritual da poupança. Fazem, digamos, depósitos regulares em contas de aposentadoria. Mas os ganhos são tão enormes que os investidores concluem que podem gastar por conta de um pouquinho de seus lucros.
Assim as pessoas vendem ações ou tomam empréstimos. Os gastos extras fazem com que sua poupança declarada baixe para quase zero (os gastos empatam com a renda corrente). Mas a riqueza delas - o valor de seus investimentos e bens acumulados - continua aumentando rapidamente.
Assunto encerrado? Não exatamente. Vejamos outro estudo ("How Negative Can U.S. Saving Get?" - Quão Negativa Pode Tornar-se a Poupança nos EUA?), elaborado pelos economistas Wynne Godley, do Jerome Levy Economics Institute do Bard College, e Bill Martin, da Phillips & Drew, companhia administradora de investimentos em Londres. O que os incomoda não é o baixo índice de poupança em si. O verdadeiro problema (dizem) é que o índice de poupança vai continuar baixando. Os outros entraves à economia - o aumento do déficit comercial e o superávit orçamentário do governo - fazem com que o crescimento dependa do impulso cada vez maior dos gastos dos consumidores.
Bem, o índice de poupança está sempre baixando. Em 1992, era de 5,7% da renda. Agora é zero. Mas o povo vai gastar 1%, 2%, 5% acima do que ganha? Para induzir os americanos a fazê-lo, o mercado acionário precisa não só ficar onde está, dizem Godley e Martin. Precisa dar grandes saltos à frente para criar sempre mais riqueza da qual os consumidores lançam mão em parte. Cedo ou tarde o processo vai estrangular-se, dizem (embora não digam quando). Então a economia dos EUA vai ficar estagnada ou entrar em declínio. As consequências atingirão mais duramente a ásia e a América Latina, pois essas regiões enviam um quarto e dois terços, respectivamente, de suas exportações para os EUA.
Quem está com a razão? Sou inclinado a ficar com os pessimistas. A economia americana pode estar flanando na própria euforia. Ações supervalorizadas fazem com que os consumidores gastem em excesso e as empresas invistam em excesso - e nada disto pode durar.
Segundo a interpretação dos otimistas, estamos apenas assistindo ao advento de um modelo de poupança novo e incomum. De qualquer forma, o baixo índice de poupança pessoal é um catalisador essencial para o boom atual. Caso de alguma forma o índice aumente, as economias americana e mundial terão pela frente um perigo até maior. TABELA (Em trilhões de US$) 1987 1998 Ativos Totais 19,6 41,3 Bens Tangíveis 7,7 12,5 Bens Financeiros 11,9 28,8 Passivo total 2,8 6,3 Hipotecas 1,8 4,1 Outras Dívidas 1,0 2,2 PATRIMÍNIO LÍQUIDO 16,8 35,0

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