A quantidade certa de vitamina S
PUBLICAÇÃO
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Equipe AE 
A cada lambida de Nikimba, um estímulo para o sistema imunológico de Tiago, de quase 2 anos. A cadela e todo animal de estimação saudável poderiam funcionar como protetores contra alergias comuns na infância. A hipótese, levantada por um estudo conduzido pelo norte-americano Dennis Ownby, chefe de alergia e imunologia no Medical College, nos EUA, é recebida com cautela por profissionais brasileiros.
Ao acompanhar os primeiros sete anos de vida de 474 voluntários, Ownby descobriu que as 184 crianças expostas a dois ou mais bichos no dia-a-dia apresentavam metade das chances de ter quadros alérgicos do que as 220 que não conviviam com animais de em casa.
De acordo com a pesquisa, publicada pelo Journal of the American Medical Association, a resistência mostrada por crianças habituadas ao convívio com animais se explica pelo contato com as endotoxinas, substâncias liberadas por bactérias presentes na saliva do bicho - e também na terra , no chão: é a folclórica vitamina S, de sujeira mesmo.
As endotoxinas seriam capazes de provocar o organismo, estimulando uma tolerância a agentes externos. Às vezes, há mais bactérias no celular e na gôndola do supermercado do que na boca do cão. As crianças de apartamento não tomam chuva, não conhecem lama. Alguns pais têm pavor dessas coisas, o que é um erro, diz o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), Renato Ávila Kfouri.
Os pais de Tiago, aos poucos, encontram a dose ideal da tal vitamina S na vida dele. Quando Tiago nasceu, fiquei com receio por causa da cachorra. Passava pano com álcool no chão, queria ferver água filtrada. Aos poucos, perdemos a neura, conta Paula Loureiro da Cruz, a mãe. Agora, ao menos uma vez por semana, ele visita a chácara do avô, põe a mão na terra, na formiga, diz o pai, Rogério Ferreira.
Na opinião da médica Ana Paula Castro, especialista da Unidade de Alergia e Imunologia do Hospital das Clínicas, o estilo de vida urbano das famílias modernas está diretamente relacionado ao aumento das alergias. Não se trata só do excesso de limpeza. A urbanização está ligada ao sedentarismo, à obesidade precoce. E o tecido gorduroso produz substâncias inflamatórias que estimulam as alergias, diz ela.
Vida esterilizada
Curiosamente, o aumento dos casos de alergias tem acompanhado a profusão de esterilizadores e antibactericidas no mercado. Segundo a Organização Mundial de Saúde, nos últimos 30 anos a porcentagem da população acometida por rinite alérgica passou de 15% para 25% e as ocorrências de dermatite cresceram de 5% para 12%. Fatores ambientais são importantes, mas a genética também conta. Já ao nascer, o tipo de parto e a formação da flora intestinal ajudam a definir a propensão do bebê a ter alergias, ressalta Ana.
Apesar de concordar que o sistema imunológico precisa ser provocado para aprender a responder de forma favorável, Kfouri recomenda cautela ao relacionar alergias com padrões de limpeza. A exposição a certos antígenos estimula a tolerância imunológica e acredita-se que os efeitos a longo prazo sejam positivos, mas não se pode generalizar. Deve-se buscar o perfil imunológico de cada um para perceber o que pode ser positivo para ela.


