São Paulo, 28 (AE) - A pianista Ingrid Haebler parece cansada de ter seu nome associado exclusivamente a Mozart (1756-1791), da qual é uma das maiores intérpretes, mas não evita o compositor, austríaco como ela. Tanto que vai tocar a "Sonata em Dó Menor" e a "Fantasia em Dó Menor" de Mozart no recital programado para segunda-feira, no Teatro Alfa Real. Completando o programa, ela toca na segunda parte "Cenas Infantis Opus 15", de Schumann, e "Quatro Improvisos Opus 142", de Schubert.
Ingrid Haebler comemora 40 anos de sua primeira gravação para a Philips este ano. De Salzburgo, por telefone, ela lamenta não ter nenhum projeto para marcar a data. "Completo 70 anos em junho e não tenho a energia de antes para enfrentar gravações", justifica, esquecendo-se de que grandes mestres vivem muito, entre eles o russo Nikita Magaloff, que foi seu professor e morreu aos 80 anos. "Já gravei o suficiente", conclui.
Se Magaloff foi o primeiro a enfrentar a integral de Chopin, depois de Bra‹lowski, Ingrid Haebler gravou todos os concertos e sonatas para piano de Mozart e registrou com seu ex-parceiro Henryk Szeryng as sonatas para violino de Mozart e Beethoven. Ela lembra carinhosamente de Szeryng e diz não ter encontrado outro violinista como o músico polonês, morto aos 70 anos, em 1988. "Mas continuo a fazer música de câmara com orquestras de todo o mundo", observa. Especialista - Há um certo desânimo na voz de Ingrid Haebler. O mundo erudito mudou, os ouvintes não são tão exigentes como antes e consomem os intérpretes que as gravadoras impõem como gênios da raça. Ingrid Haebler é para espíritos refinados, intérprete de referência para qualquer pianista que tenha como meta tocar Mozart com a delicadeza merecida. Certa vez, a pianista comparou a música com a medicina, defendendo a especialização como ponto culminante de uma carreira. "Eu disse isso?", pergunta, surpresa. "Pode ser...", conclui.
De qualquer modo, a sensação que se tem ouvindo Ingrid Haebler é a mesma sensação de conforto diante de um bom profissional da medicina, um cirurgião no qual se deposita total confiança. Seu perfeito domínio da obra mozartiana, sua equilibrada parceria com violinistas geniais como Szeryng ou Grumiaux traduzem uma escolha que para muitos é sinônimo de inclinação clássica. Claro, Ingrid Haebler grava o mesmo repertório há 40 anos e será quase impossível que uma gravadora a faça sentar ao piano para tocar ou registrar uma peça de Hans Werner Henze. E, franca, ela não demonstra o mínimo entusiasmo pela produção contemporânea. Seus ouvintes não reclamam. Primeiras notas - Ingrid Haebler pertence à estirpe de Rubinstein e Schnabel. Não pretende ser nada além do que é. Está a milhas de distância dos modernos. Não quer acompanhar a caravana dos "decadentes" porque não sabe seu destino, algo impensável para uma pianista clássica, educada por uma mãe igualmente inflexível, Charlotte, que lhe ensinou as primeiras notas. Poucos intérpretes, hoje, têm a coragem de expor esse sentimento de forma tão clara como essa austríaca criada na Polônia que hoje vive a poucos quilômetros de Salzburgo.
Pianista prodigiosa, ela lembra que muito antes de assinar contrato com sua gravadora, a Philips, em 1959, já gravava discos. Seu début, aos 11 anos, em Salzburgo, anunciou uma carreira brilhante de intérprete e professora (do mesmo Mozarteum, onde estudou). A situação era totalmente diferente da vivida pelos jovens talentos hoje clonados pelas gravadoras, sempre ávidas por novidades. Ingrid é uma pianista intelectualmente preparada, não uma máquina de tocar piano. Como professora, sabe que é insuficiente o domínio técnico.
Exige-se, hoje, muita técnica dos jovens pianistas, mas pouco conhecimento sobre o que tocam. Ingrid Haebler, ao contrário, é capaz de discorrer horas sobre a obra de Mozart, renovando seu discurso a cada vez. É essa a intérprete que se apresenta na segunda-feira, às 21 horas, no Teatro Alfa Real (Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, ao lado do Hotel Transamérica). Os ingressos custam de R$ 30,00 a R$ 50,00 (com desconto para estudantes, idosos e aposentados), nas bilheterias do teatro, das 11 às 19 horas, ou pelos telefones 5693-4000 e 0800-558191.

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