A perigosa busca do inatingível
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segunda-feira, 19 de julho de 2010
Marcela Rocha Mendes<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Há pelo menos duas semanas, todo o Brasil acompanha diariamente os desdobramentos do caso ''Eliza Samudio'', ex-amante do goleiro Bruno Souza, desaparecida desde o início de junho. Nascida em Foz do Iguaçu, a jovem de 25 anos mudou-se para São Paulo e, posteriormente, para o Rio de Janeiro, onde conheceu o jogador de futebol.
Em 19 maio, foi o caso da segunda colocada no concurso Miss Curitiba, Suzimara de Lima Steff, que chamou a atenção dos paranaenses. A jovem foi presa em uma megaoperação da Polícia Federal (PF) por suspeita de envolvimento nas atividades do namorado Eder de Souza Conde, acusado de ser um dos maiores traficantes de droga da Região Metropolitana de Curitiba. Conforme o coordenador da operação, delegado federal Wagner Mesquita, relatou na época, ela não só tinha conhecimento dos crimes cometidos pelo namorado, como também passou a participar do esquema. A defesa de Suzimara nega a versão, no entanto ela permanece presa.
São dois casos extremos, sem qualquer relação aparente, mas que levantam a questão sobre as escolhas de vida de jovens que constróem ideais muitas vezes inatingíveis. Na opinião do psicólogo Marcelo de Oliveira, muitas meninas têm para si um ideal de vida supervalorizado, sonham em ser modelos, destaque, famosas. ''Elas acabam construindo um mito muito diferente da realidade. E essa diferença cria uma frustração enorme''.
Segundo o especialista em psicopatologia, essa frustração ocorre em decorrência de alguns fatores. ''Às vezes percebe-se que o preço pago para atingir aquele sonho foi muito alto. Outras vezes, a jovem chega perto, mas por não ter conquistado plenamente o ideal, procura preencher essas lacunas com outras muletas''.
Oliveira explica que o espaço acaba sendo preenchido por aquilo que ''venha mais fácil'', por vezes o uso de drogas, ou o envolvimento com pessoas e atividades que apresentem uma proximidade com aquele ideal.
O argumento utilizado frequentemente de que ''foram as influências'' demonstraria apenas um mecanismo de defesa. ''A pessoa se destitui do poder de decidir, se diz muito suscetível. Indica uma negação de que as coisas estejam acontecendo. E a compreensão daquela situação pode vir tarde demais'', explica o psicólogo. Para ele, a fase da adolescência é quando essa situação é mais comum.
Mulheres de classes baixas procuram mais a delegacia
Segundo o Mapa da Violência no Brasil, do Instituto Sangari, dez mulheres morrem todos os dias vítimas da violência, dados de 2007. De acordo com a titular da Delegacia da Mulher, em Curitiba, Daniela Corrêa Antunes Andrade, a grande maioria das vítimas que procura a polícia são de classes mais baixas. ''A cada 50 atendimentos, 49 são de mulheres com menos condições, porque elas não têm outros meios de cessar a violência. As de classes mais altas só procuram a delegacia se o advogado orientar''.
Daniela conta que desde que assumiu, não soube de nenhum caso envolvendo jogadores de futebol. Mas recebeu algumas denúncias envolvendo traficantes. As denúncias, nesses casos, colaboram em investigações da Divisão Estadual de Narcóticos. ''Dizem que bandido grande é igual político: só cai quando briga com a mulher'', brinca.
Na unidade exclusiva para atendimento ao população feminina, a grande maioria dos casos envolve agressão corporal leve, ameaça e injúria. Somente na Capital, são feitos de 30 a 60 boletins de ocorrência e duas pessoas são presas em flagrante ao dia.


